Alerta

Banco Master, previdência municipal e aplicações de risco

As previdências municipais são preocupantes para os aposentados e perigosas para os cidadãos

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 17/01/2026 07:28
Banco Master, previdência municipal e aplicações de risco
Com raízes na Roma Antiga, os fundos de pensão são uma ideia que nem sempre dá certo. Especialmente quando estatais.
Os fundos de pensão têm raízes na Roma especialmente no erário militar (Aerarium Militare) que garantia a reforma dos legionários. Na idade média, a ideia foi expandida pelos artesãos. Era uma forma de se protegerem em caso de incapacidade para o trabalho e velhice. Mas, principalmente, uma forma de garantir renda para as viúvas e filhos. Uma boa ideia. Mas, por que na nossa história, há tantos exemplos de fracasso? E o que a derrocada do Banco Master tem a a ver com isto?

Por laços financeiros e familiares, o Banco Master está diretamente ligado a pessoas que comandam a Igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte. Segundo denúncia da Senadora Damares Alves, o Pastor e empresário André Machado Valadão e o líder religioso Fabiano Campos Zettel estão envolvidos. 

Aliás, Fabiano Campos Zettel foi preso no dia 14, no aeroporto, quando fugia para Dubai.

Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. André Valadão captava dinheiro usando a fintech Clava Forte Bank, ligada à sua igreja da Lagoinha. Esta fintech foi tirada do ar após o Banco Central liquidar o Banco Master.

O que isto tem a ver com os funfos de pensão?

As estimativas atuais indicam que o Banco Master deu na praça um prejuízo de R$ 61 bilhões. Deste total, cerca de R$ 5 bilhões vieram de fundos de pensão. Com R$ 1,5 bilhão de prejuízo, o Rio Previdência é o campeão em perdas. Mas, já foram identificados 18 fundos perdedores. Inclusive de municípios mineiros, como o de Congonhas, que perdeu R$ 18 milhões.

Quem paga?

Este dinheiro não será recuperado, pois está fora da garantia. Não tem seguro. Portanto, o prejuízo terá que ser arcado pelo próprio fundo de pensão ou pelo município (ou Estado, no caso do Rio de Janeiro). Por causa disto, os gestores responsáveis (ou irresponsáveis, para falar a verdade), estão justificando que o aposentado não será prejudicado. 

Será verdade?

Ora, se o próprio fundo conseguir arcar, o prejuízo será bancado pelos próprios aposentados atuais e futuros. Portanto, pagam os servidores. Mas, se o fundo não conseguir arcar, o município (prefeitura) ou o estado terão que pagar. Neste caso, todos os cidadãos pagam.

Portanto, quando os administradores dos fundos dizem que os aposentados e pensionistas não terão prejuízos, eles estão apenas dizendo que os proventos serão pagos. Mas isto não significa que não haverá prejuízo. Este já houve. Agora é saber se o municṕio (prefeitura) terá que desembolsar ou não. 

Como os fundos estão sempre apertados, é quase certo que, mais dia menos, dia, silenciosamente, a prefeitura tirará dinheiro do cidadão e recomporá o fundo. É assim, na calada, que este tipo de prejuízo é coberto.

Ganância e orgulho, burrice ou desonestidade?

Há três motivos que levam o administrador de um fundo de pensão a embarcar numa canoa furada como o Banco Master: ganância e orgulho, burrice ou desonestidade. Mas, o pano de fundo é sempre o mesmo. A isca não muda: um banco que paga altos retornos. É o caso do Master: enquanto os bancos sérios e as cooperativas estavam pagando em torno de 1% ou 1,5% ao mês pelos investimentos dos fundos, o Banco Master estava oferecendo 3% e até mais.

Qualquer administrador de fundos tem obrigação de saber que nenhum banco sério e honesto tem condições de oferecer o dobro do rendimento oferecido pelos demais bancos. Por isto, ao receber uma oferta de dobro de rendimento, o administrador deveria, imediatamente, encerrar a conversa e ir bater em outra porta. Afinal, ofertas exorbitantes é o sinal mais claro que existe de que um banco está em estado falimentar.

Mas, se este é um sinal público, claro, e veemente de que algo vai mal, por que o administrador colocar o dinheiro alheio sob risco desproporcional? Vamos discriminar.

Ganância e orgulho –— Acontecem quando o gestor que aparecer. Quer mostrar que é sabe ganhar dinheiro para o seu fundo. É ganancioso e orgulho. Quer brilhar. Aí, mesmo sabendo que o risco é grande, vai em frente. Acha que é esperto. Acha que conseguirá tirar o dinheiro antes que a bancarrota se torne pública.  Mas, como raramente surge o sinal de quando retirar o dinheiro, o fim costuma ser o prejuízo que já era previsível. A ganância e a confiança na própria esperteza leva ao buraco. É como dizem: esperteza demais engole o esperto.

Burrice –— é quando o gestor não entende o mercado de capitais e não reconhece que donos de bancos, investidores, administradores de fundos bancários e outros não nasceram ontem. O administrador do fundo de pensão dos municípios é geralmente um servidor público com pouco conhecimento e nenhuma experiência em gestão de grandes somas de dinheiro. Muitas vezes não sabe administrar nem seu próprio salário, mas agora estão administrando milhões.

São presas fáceis dos gerentes de bancos, instruídos por especialistas.

Aí, como são ignorantes, não têm a capacidade de perceber o risco. Só percebem a vantagem. É como tentar colher uma bela fruta no barranco de um abismo. A fruta vale o risco? Os inteligentes decidirão que não, os burros, que sim.

Desonestidade –— Desde que os gestores das previdências municipais foram obrigados a fazer cursos de mercado de capitais, a burrice e a ganância perderam importância nos prejuízos de fundos de pensão. A maior motivação passou a ser a desonestidade. O administrador sabe que o que está fazendo é arriscado, mas, a troca de um pagamento "por fora", tira o dinheiro do servidor de um investimento seguro e o coloca num investimento de alto risco.

No caso do Banco Master, mesmo após serem alertados dos riscos, muitos administradores não só mantiveram, como aumentaram seus investimentos na canoa furada. Para estes, o caso é mesmo de cadeia.

BDPREV  –— Bom Despacho

O BDPREV já foi roubado uma vez. Valor pequeno, mas nunca recuperado. A prefeitura (município) já teve que cobrir insuficiências repetidamente. Os administradores vinham recebendo orientação adequada. Os investimentos eram conservadores, ou seja, seguros. O servidor deve torcer para continuar assim. E o cidadão também, porque quando a previdência municipal perde dinheiro, quem paga é o cidadão, com seus impostos.

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