Os guerreiros hunos:
O trânsito, no Brasil, carrega um mistério muito grande. A impressão que se tem é a de uma verdadeira maldição. Infelizmente, como regra geral, mal a pessoa ligou o seu carro ou a sua moto e arrancou, torna-se um verdadeiro huno. Lembro que os hunos eram guerreiros bravos e tiveram um rei, Átila, mais conhecido como “flagelo de Deus”, em razão de sua ferocidade extremada.
Eu tive oportunidade de conhecer o Canadá, em 2023, lugar onde a gentileza e a simpatia das pessoas no trânsito, ao contrário do Brasil, me impressionaram muito. Até escrevi um texto sobre todas as minhas experiências no Canadá e nos Estados Unidos. Quem se interessar, basta clicar no link https://beniciocabral.wordpress.com/2024/04/09/viagem-ao-canada-e-aos-eua/ .
Sábia constatação:
Outro dia um primo meu me relatou um fato que acontecera com ele, mas que já aconteceu dezenas de vezes com cada um de nós, motoristas. Meu primo vinha dirigindo e houve um entrevero, um deslize qualquer, que foi imediatamente seguido de um bate-boca, xingamentos mútuos. O meu primo, que levava o filho adolescente no carro, comentou: viu esse cara grosso e agressivo? Se eu, por descuido, me esbarrasse com ele caminhando no passeio, seria tudo diferente. Eu pediria desculpas e ele sorriria para mim e faria algum comentário simpático, mas como é no trânsito, todo mundo vira fera acuada. Sábia constatação. No Brasil, é assim mesmo.
E vou complementar. Aqueles que erram, que cometem os deslizes, são os mais violentos, os mais agressivos, os que mais xingam e mostram o dedo médio. Se essa pessoa estiver armada, aí é tragédia garantida.
Dirigir ou pilotar é um ato coletivo:
Dito isso, vou um pouco além. Quero destacar que o trânsito, isto é, dirigir ou pilotar, é um ato coletivo, que envolve todas as pessoas, inclusive as que não estão embarcadas. O que você faz no trânsito reflete-se em todas as pessoas no entorno, independentemente da sua vontade. É um ato coletivo, mas as pessoas acreditam, piamente, que se trata de um ato individual. As pessoas acreditam, piamente, que os outros estão ali apenas para prejudicá-las. Essa é a cultura do brasileiro.
O argumento mentiroso do “foi só um minutinho”:
E a coisa piora muito. Muitas pessoas acreditam, piamente, no argumento do “foi só um minutinho”. Esse é o argumento mais canalha que existe na cultura brasileira. Você prejudica outro, ou muitos e, quando questionado, diz, na cara dura: “foi só um minutinho”. Isso vale na vida pessoal, no prédio que você mora, no seu local de trabalho, no de lazer etc. Mas irei me ater ao trânsito, que é o meu alvo neste artigo.
Alguns casos reais:
Para facilitar o entendimento, vamos a alguns exemplos, todos reais, todos efetivamente ocorridos.
Em um clube social havia uma vaga para deficientes. O deficiente chegou, mas a vaga estava ocupada por alguém sem a credencial. O deficiente não pôde estacionar e teve de pedir ajuda para encontrar o infrator. Ao chegar, a primeira frase que expeliu foi: “foi só um minutinho”.
Outro dia eu vinha por uma rua de mão dupla e havia uma van de passageiros simplesmente estacionada em fila dupla, fechando a minha mão. O motorista parou e abandonou a van ali, me obrigando a passar pela contramão e, portanto, embolando o trânsito. Eu tenho certeza de que se questionasse, a resposta seria: “foi só um minutinho”.
Outro dia eu havia estacionado na Praça de Esportes de Bom Despacho. O estacionamento é amplo e quase sempre está bem vazio. Cheguei para pegar o meu carro e um rapaz havia estacionado uma motocicleta atrás do meu carro, impedindo a minha saída. Havia um hectare de vagas livres, mas o infeliz achou de estacionar atrás do meu carro, provavelmente “era só um minutinho”.
Há poucos dias também encontrei uma caminhonete parada transversalmente na via, fechando uma faixa de circulação. O motorista atravessou a caminhonete e entrou no galpão em frente, como se fosse o rei da rua. Tenho certeza de que ele diria que “foi só um minutinho”.
E tem aqueles que a gente encontra praticamente todos os dias, principalmente proprietários de caminhonetes caras, aqueles que têm “um rei na barriga”, que simplesmente param no meio da via, na cara dura, para bater um papo com alguém. E sempre tem como encostar o carro, mas a pessoa prefere prejudicar os demais. Se for questionado dirá que “foi só um minutinho”.
Vamos melhorar isso?
Agora, eu advirto, se você buzinar, ou reclamar, cuidado, esse mesmo bom samaritano que está dolosamente prejudicando todo mundo, se tornará uma fera selvagem e avançará sobre você. Se estiver armado, é morte certa, no sentido literal.
A minha pergunta é: quando nós brasileiros entenderemos que o trânsito é um ato coletivo, social, e que não podemos simplesmente sair prejudicando os demais nem mesmo por “meio minutinho” sequer? E mais, quando cada um de nós terá a humildade de pedir desculpas pelo erro cometido e corrigir o malfeito, sem brigas e sem agressões?
24/11/2025 10:10
Por coincidência, ontem eu ia chegando no Fidélis da linha e quando embiquei o carro para entrar, tive que pisar no freio, porque um cidadão vinha saindo pela entrada. Mais um egocêntrico.