Houve época em que o dólar era uma moeda confiável. No mundo inteiro, países e pessoas o compravam como proteção do patrimônio. Pessoas e países, mundo afora, compravam trilhões de dólares e guardavam em contas, em cofres e mesmo debaixo do colchão. O Brasil não é exceção. O Bacen tem quase US$ 400 bilhões guardados. Os bancos centrais da China e do Japão têm trilhões. Mas, de uns tempos para cá, começaram a trocar seus dólares por outras moedas, ou por ouro e prata. Especialmente a China.
Com as confusões criadas por Trump, as compras de ouro aumentaram. O BACEN, no final de 2025, comprou mais 43 toneladas. Com isto, nossas reservas passaram para 170 toneladas do metal amarelo.
Mas, nossas reservas em dólares continuam altas. Cerca de US$ 360 bilhões. Porém, se Trump continuar confundindo e bagunçando o mercado internacional, é provável que o BACEN continue substituindo dólar por ouro.
Tendência mundial
A dívida americana, avaliada em US$ 38 trilhões, é gigantesca. O mais grave é que cresce a uma taxa de US$ 1 trilhão a cada 100 dias. O déficit comercial de 2025 deve fechar em US$ 1 trilhão. As ações caóticas do presidente Trump têm agravado a situação. Por isto os países estão vendendo dólares e comprando ouro. Nos Estados Unidos, mesmo particulares estão comprando ouro para proteger seus patrimônios.
No mercado mundial, os maiores credores dos americanos são o Japão e a China. O Japão já deu sinais discretos de que pode começar a desovar dólares, mas ainda não o fez. A China, por outro lado, já mostrou que quer se livrar de suas reservas em dólares. Em 2025 ela se desfez de US$ 76 bilhões. Em compensação, nos últimos 14 meses, comprou ouro sem parar. Elevou suas reservas para 2.303 toneladas.
Estes movimentos no sentido de usar menos o dólar e comprar mais ouro teve dois resultados perceptíveis. O primeiro foi o aumento do preço do ouro. Mais do que dobrou, recentemente. O segundo, foi a desvalorização do dólar perante quase todas as moedas. Estas duas tendências foram positivas para o Brasil. Primeiro, porque o Brasil, que já tinha reservas em ouro, viu seu patrimônio valorizado. Segundo, porque a queda do dólar torna o déficit comercial do Brasil menos importante, perante o poder de compra do real.
Como mostra o quadro ao lado, o real foi a 9ª moeda que mais se valorizou frente ao dólar. Um ganho de 12,40%. Na prática, isto significa que o custo dos importados ficou mais baixo e o déficit comercial, convertido em reais, ficou menor.
Yuan
Um caso digno de nota é o Yuan. Pode causar estranheza, que a moeda chinesa tenha se valorizado apenas 3,69% em relação ao dólar. No entanto, isto é parte da política chinesa. Lá, o governo se esforça para não deixar a moeda deles ficar. É a mesma política que o Japão tem há décadas. Mantendo suas moedas estáveis ou fracas perante o dólar, eles conseguem exportar mais, e remunerar melhor os seus produtores. É uma política monetária rigorosamente controlada pelo governo.
Esta situação é diferente do Brasil, onde o mercado controla o preço, e o Banco Central fez pequenos ajustes pontuais, comprando e vendendo dólares para evitar flutuações bruscas e matar a especulação.
Argentina
Vale a pena, ainda, chamar a atenção para o peso argentino. A despeito do enorme barulho que seu presidente faz, a desvalorização da moeda deles foi de -28,72% com relação ao dólar. Isto significa, em cálculo simplificado, que no Mercosul, o poder de compra do brasileiro subiu 41%, quando comparado ao poder de compra dos argentinos.
Ou seja, o almoço de um brasileiro na Argentina está custando a metade do custava antes. Já o almoço de um argentino no Brasil está custando o dobro.
Mais ouro?
Tudo indica que países que têm reservas em dólares, como Brasil e China, continuarão comprando ouro e vendendo dólares. E quanto mais confusão Trump fizer com suas tarifas, sanções, e brigas com o presidente do FED (o banco central americano), mais rapidamente isto deve acontecer.