Alerta

As meias mentiras na boca da verdade

Mentiras deslavadas nem sempre são as piores. Aquelas que têm um toque de verdade são mais convincentes e mais venenosas

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 01/02/2026 09:30
As meias mentiras na boca da verdade
Segundo Disraeli, há mentiras, há mentiras deslavadas e há as estatísticas. Estas são imbatíveis para enganar.
"Os números frequentemente me enganam, particularmente quando eu mesmo os preparo. Neste caso, quase sempre se aplica com justiça e força a observação atribuída a Disraeli: 'há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatística'" –— Mark Twain. 

Um amigo comentou comigo que está havendo uma grande fuga de empresas do Brasil. Como prova disto, ele apresenta uma notícia cuja manchete diz o seguinte: 

Mais de 200 indústrias brasileiras já cruzaram a fronteira e se instalaram no Paraguai. Elas foram atraídas por incentivos do país vizinho, como isenção de impostos e menores encargos trabalhistas. (Veja aqui)

A pessoa que publicou a matéria no Instagram, alterou ligeiramente a manchete para:

Mais de 200 indústrias brasileiras já cruzaram a fronteira e se instalaram no Paraguai nos últimos anos. O movimento tem sido impulsionado por incentivos oferecidos pelo país vizinho, como isenção ou redução de impostos, menor carga tributária e menos encargos trabalhistas. (Veja aqui)

A expressão "nos últimos anos" atingiu seu objetivo de enganar, embora nenhum trecho, por si só, seja errado ou mentiroso. Na prática, é uma mentira, sem mentira. Uma mentira por induzimento. Uma mentira gerada por três fatores:

  • Desinformação (muita gente não sabe de que se trata, e a matéria não explica)
  • Preguiça (de pesquisar e entender)
  • Viés confirmatório (a pessoa não busca se informar e entender;  ela busca confirmar o que pensa que sabe)

A expressão atingiu seu objetivo de enganar. A publicação foi elogiada (curtida) por 368 mil pessoas e comentada por 9.900 pessoas. O que estes 9.900 comentários mostram é que todos entenderam que "nos últimos anos" significa "no governo Lula". Todas as críticas foram no sentido de que as empresas estão "fugindo" por causa do Lula.

No entanto, nada mais longe da verdade.

O movimento de saída das empresas do Brasil para o Paraguai começou 28 anos atrás, com a Lei Manquila. Seu objetivo era levar empresas para o Paraguai. Embora aprovada em 1997, ela começou a decolar em 2006, com o crescimento da Ciudad del Este como um grande centro comercial. A principal fonte das compras no Paraguai.

Entre 2006 e 2019, o movimento foi explosivo. O Paraguai deixou de ser apenas um centro de contrabando para o Brasil (com os sacoleiros), e tornou-se um lugar atrativo para instalação de novas empresas. Neste período, oficialmente, 249 expandiram sua produção no Paraguai.

Governo Bolsonaro

No Governo Bolsonaro (2019-2022), 78 (setenta e oito) empresas brasileiras levaram sua produção para o Paraguai.

Governo Lula

No Governo Lula (2023-2026), foram 75 (setenta e cinco) empresas fizeram o mesmo. (Este número ainda pode mudar)

A verdade e a mentira

Se a expressão "nos últimos anos" for entendida como "de 1997 até 2026", a notícia do Instagram está correta e não mente. Mas, se for entendida como "nos últimos três anos", ou "no governo Lula", ela se torna mentirosa. No entanto, foi exatamente neste sentido mentiroso que a notícia foi entendida! É o que mostram os quase 10 mil comentários e a divulgação que meu amigo fez e me passou.

É aí que se aplica a expressão atribuída a Disraeli: "há mentiras, há mentiras deslavadas e há as estatísticas". Ou seja, estatísticas distorcidas são mentiras muito fortes.

Breve histórico

Nos primeiros anos, as empresas brasileiras testaram ás águas. Queriam ver se a lei paraguaia era para valer. Até 2010, eram transferidas de 5 a 10 empresas por ano. Em 2013 a empresa de peças Yazaki levou sua produção para lá. Aí vieram outras empresas de porte maior:

Yazaki (2011/2012)
Sumitomo Electric (2013)
Guararapes / Riachuelo (2015)
Estrela (2017)

A volta

O caso da Estrela é interessante. Ela não saiu do Brasil para o Paraguai. Transferiu sua produção da China para o Paraguai. O processo começou em 2017, mas foi completado em 2019 (governo Bolsonaro). Mas não foi a única. Também fizeram isto a Xalingo, Metalfrio, Colcci / Grupo AMC Têxtil, Buddemeyer. Elas voltaram da Ásia para o Paraguai.

Outros exemplos de transferência entre 2019-2022 (Governo Bolsonaro):

  • Lupo (2020) (outra unidade em 2026)
  • Fiasul Têxtil (2022)
  • JBS Alimentos (2021)
  • Vale Mineração (2021)

Por quê?

Estas empresas não estão saindo do Brasil. Não estão fechando fábricas no Brasil. Elas estão abrindo unidades no Paraguai para melhorar a competitividade, facilitar a exportação, melhorar a concorrência com a China. Este movimento não significa uma piora da economia brasileira. Ao contrário: ele mostra que o Brasil tem capital, tecnologia e experiência administrativa para se expandir mundo afora. Como os Estados Unidos fizeram, usando mão de obra e insumos mais baratos na China, no Vietnã e na Índia.

Aliás, por falar em Índia, o Embraer acabou de assinar um contrato gigante para abrir lá uma moderna fábrica de aviões. Antes que as manchetes enganadoras apareçam, ela não está saindo do Brasil, está apenas se expandindo para ter maior alcance no mercado mundial.

A boca da verdade (Bocca della Verità)

Na Itália, a bocarra que ilustra a capa desta matéria é conhecida como Boca della Verità. Segundo a lenda, perderá a mão quem a colocar na bocarra e mentir. Se ela existisse no Brasil, 90% dos jornalistas e 99% dos profetas das redes sociais já estariam manetas. Das duas mãos.

Mas, por enquanto, mentir nas redes socias é motivo de curtidas de ignorantes e sucesso de público, não de punição.

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