O incidente
No dia 25 de janeiro, cerca de oito a doze mil pessoas se reuniram em Brasília para receber o deputado Nikolas Ferreira. O local escolhido foi a Praça do Cruzeiro. Antes do encontro terminar, caiu um raio na região. Em consequência, 89 pessoas foram socorridas pelo corpo de bombeiros e pelo SAMU. Destas, 49 tiveram que ser atendidas nos hospitais do SUS de Brasília (HBDF e HRAN).
Entre os atendidos nos hospitais, oito foram consideradas em estado grave, com queimaduras no tórax, mãos e quadris. O quadro foi complicado por hipotermia, devido à chuva.
O cenário
Local e terreno
A Praça do Cruzeiro, que fica num ponto alto do Eixo Monumental. Esta área aberta e descampada, tem cerca de 1000 metros entre os para-raios do Monumento a JK e da Catedral Rainha da Paz. No sentido transversal, cerca de 700 metros, entre os para-raios do QG do Exército e do INMET.
Considerando que um para-raio nas alturas em que estão instalados, protegem um raio de poucas dezenas de metros, pode-se inferir que o retângulo gramado, com árvores esparsas, não tinha nenhuma proteção contra raios.
Estrutura comemorativa
Os organizadores montaram no local um palaque de metal, colocaram grades metálicas para delimitar a área do público, e colocaram um guincho ou guindaste, também de metal, com a haste levantada para o alto.
Ou seja, a haste metálica virou um para-raio, a grade metálica virou um condutor de raio.
A chuva, os trovões e os raios
A chuva veio forte. Céu plúmbeo, trovões e raios. A situação estava ficando sombria.
O piso
O gramado e o asfalto estavam encharcados. Não apenas com a chuva daquele momento, mas dos vários dias de chuva que haviam se sucedido em Brasília.
A multidão
Sobre este chão encharcado, com muitos corpos também encharcados, debruçados contra a grade metálica, estava aquela multidão encapuzada formada por oito ou dez mil pessoas.
A tempestade perfeita
O clichê chama de tempestade perfeita um evento não favorável que se torna tremendamente agravado pela combinação de circunstâncias. O que era uma tempestade, se torna um desastre.
A tempestade que se abatia sobre Brasília era um evento não favorável. Não era recomendável nem sair de casa. Mas, aí vieram as circunstâncias agravantes:
- Aglomeração de pessoas em áreas altas e descampadas durante chuva com raios
- Cercas metálicas (e sem aterramento)
- Palanque metálico (também sem aterramento)
- Poucas árvores esparsas pelo gramado
- Pessoas molhadas, pisando no chão molhado, encostadas umas às outras
- Algumas pessoas debruçadas sobre a grade metálica
- Um guindaste com haste metálica (e sem aterramento), elevada a uma dezena de metros
Era a própria definição de tempestade perfeita: uma chuva que, por si só, era ameaçadora, mas que foi dramaticamente agravada por fatores humanos calcados na mais pura imprudência.
O que "atrai" raios
Fisicamente, o raio típico é um movimento de duplo sentido. As nuvens ficam carregadas negativamente, e os elétrons começam a descer para a terra. Aí, a terra responde, enviando uma carga "para cima". É este choque entre o que está descendo e o que está subindo que vemos como relâmpago. No final, os elétrons que estavam em excesso nas nuvens se espalham pela terra.
Não há raios sem o acúmulo de elétrons, mas, uma vez acumulados, eles são "atraídos" por pontos altos e bons condutores. Quanto mais alto, e quanto melhor for a condutância, maior será a atração. Este é o princípio do para-raios: um ponto alto (mais perto das nuvens) e um bom condutor (cobre, bronze, aço, ferro) que conduzem os elétrons até a terra e os dissipa.
O papel da grade metálica
No cenário acima, o papel da grande metálica era distribuir horizontalmente a carga. Como não era uma cerca aterrada, uma vez recebido o raio, a energia tendia a se propagar ao longo da grade. Por isto, qualquer pessoa debruçada sobre ela, podia levar um choque. A intensidade seria variável conforme o ponto de contato, a umidade, o contato do sapato com a terra.
São estas variações de "contato" e "aterramento" que explicam por que algumas pessoas podem sofrer mais do que as outras.
IMPRUDÊNCIA
A imprudência ocorrida em Brasília é uma das explicações de por que, proporcionalmente, os raios matam quatro vezes mais no Brasil do que nos Estados Unidos. Lá, as regras são mais severas, e a educação que prepara para evitar riscos naturais é mais avançada do que no Brasil. Os feridos em Brasília não resultaram de mero azar, mas de ignorância e de irresponsabilidade coletiva. Ninguém é imune a acidentes, mas há diferença entre o que é força da natureza e casos fortuitos, do que é consequência de imprudência.
Todas as condições eram conhecidas: as chuvas, o risco de raios, os perigos da área. O que a prudência determinava, naquele momento, era mandar as pessoas se afastarem das cercas, abaixar a haste do guindaste, desligar os aparelhos elétricos e evacuar a área.
Por algum motivo misterioso, a defesa civil não cumpriu o seu papel. O Corpo de Bombeiros do DF, que estava presente, também se omitiu. Junto com o SAMU, ele fez um bom trabalho para socorrer as vítimas, mas fez um péssimo trabalho no que diz respeito à prevenção.
Ali faltou pulso, talvez? A imprudência foi grande.
Há responsabilidade civil?
Ninguém é culpado pela chuva. Tampouco, pelo raio. Mas, pela imprudência, há culpados. Em tese, os organizadores, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros colocaram milhares de vida em risco. A Praça do Cruzeiro não é lugar apropriado para receber multidão durante chuva com raio. Muito menos com cercas e hastes metálicas levantadas.
Raio mata gado no Brasil
Todos os anos o Brasil perde cerca de 3000 cabeças de gado. Eles morrem em situação semelhante à ocorrida em Brasília, no dia 25 de janeiro: em dias de chuva, o gado se reúne no meio de pastos abertos, ou tentam se proteger sob árvores. o resultado é a morte coletiva. Já houve registro de mais de 300 cabeças morrerem por um só raio.
Este é o tipo de risco a que a multidão reunida em Brasília foi submetida. Muita gente poderia ter morrido, como estas milhares de cabeça de gado que morrem todos os anos no Brasil.

Como se prevenir
A primeira, e mais importante prevenção contra raios é ficar em casa em dia de chuva. Se estiver fora de casa, procure um prédio seguro, de alvenaria, concreto ou madeia. Se possível, que tenha para-raios.
Se estiver num carro com corpo metálico, não saia. Permaneça dentro dele. O carro, além de ter o isolamento dos pneus, forma uma gaiola de Faraday. Eles dois elementos tendem a tornar o interior do carro seguro. Sair dele, e ficar no acostamento, na pista ou na rua aumenta seu risco de ser atingido.
Mas, se se você for apanhado em campo aberto (como a Praça do Cruzeiro, em Brasília), sem abrigo e sem condições de fugir? Neste caso, siga estas regras para minimizar o risco de você se tornar o para-raio:
- Fuja das árvores. Elas são para-raios naturais. Não fique perto delas. Quanto mais alta, mais perigosa;
- Não suba em nenhum lugar algo: morro, cupim, monte de pedras. Quanto mais alto você ficar, maior o perigo;
- Afasta-se de cursos d'água (riachos, rios, lagos);
- Afaste-se de cercas de arame, de ferro, qualquer coisa metálica
- Assuma a posição de agachamento contra raios. Depois de tomar as medidas acima, procure o lugar mais seco possível perto de você, fique de cócoras, abrace os joelhos, abaixe a cabeça o máximo que puder, evite ao máximo que for possível o apoio no chão.
- Siga a regra 30/30: ao ver um relâmpago, conte até ouvir o trovão. Se demorar 30 segundos ou menos entre ver o raio e ouvir o trovão, você está em área de risco. Abrigue-se (ou acocore-se). Espere no abrigo (ou permaneça de cócoras) até que se passem 30 minutos sem você ouvir nenhum trovão.
Estas medidas são para casos extremos, quando não se for possível procurar refúgio antes da tempestade com raios chegar até você
A posição de cócoras, com o menor contato possível com o solo, e menor superfície é a que mais protege contra raios. No entanto, é uma medida extrema, Só se deve recorrer a ela quando não for possível procurar lugar seguro antes da tempestade chegar.