Alerta

Centenas de empresas e dezenas de sócios escondem o fluxo do dinheiro.

Para descobrir as relações de Bom Despacho com o escândalo do Master, precisamos analisar empresas e sócios

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 07/02/2026 18:05
Centenas de empresas e dezenas de sócios escondem o fluxo do dinheiro.
Golpes financeiros e lavagem de dinheiro exigem conhecimentos de contabilidade e de mercado. A execução envolve um emaranhado de empresas, empresários e laranjas.


Como mostra a imagem, a Clínica Mais Médicos tirou sua página do ar, sob alegação de manutenção programada. Nesta linha, ela segue o comportamento da fintech Clava Forte, da Igreja Lagoinha, que também saiu do ar após liquidação do Banco Master.



A teia

Daniel Vorcaro, seus sócios e familiares, teceram uma complicada teia para fraudar o sistema financeiro. Conseguiram. O tombo que deram no mercado ultrapassa R$ 61 bilhões. (Leia também: aqui e aqui)

Formam a teia centenas de fundos, empresas e sócios. Este conglomerado embaraçado tem quatro objetivos:

  • Disfarçar as transações ilícitas;
  • Ocultar o nome dos fraudadores;
  • Lavar o dinheiro sujo;
  • Fabricar dinheiro do nada.

O disfarce

Fraudadores como Daniel Vorcaro e Fernando Alves (o personagem que une Bom Despacho ao Master) criam empresas que são donas de outras empresas. Colocam uma "dentro" da outra. Algumas são comandadas por laranjas. É o caso de Fernando Alves Vieira. Ele é, ou foi sócio de 65 empresas. A maioria é de Minas, mas ele tem empresas também em São Paulo, Rio, Goiás e Rio Grande do Sul.

Muitas destas empresas são holdings. Ou seja, eles são donas de outras empresas, isto, e o fato de serem sociedades anônimas, permite que os nomes fiquem ocultos. Pelo menos, à primeira visa. É trabalhoso e demorado mapear todas as empresas envolvidas. Este é o caso de Fernando Alves, com suas 65 empresas (algumas já foram desovadas ou fechadas).

Em alguns casos, eles usam laranjas. Ou seja, usam o nome de outras pessoas para criar e administrar empresas. Segundo o Ministério Público Federal, a empresa Clínica Mais Médicos S/A, é dirigida por uma laranja chamada Valdenice Pantaleão. Mas, não é ela quem administra a empresa. Isto é feito por Fernando Alves, que tem procuração para fazê-lo.

Assim, com esta combinação de múltiplas empresas, holdings e laranjas, as operações ilícitas ficam ocultas.

Proteção dos nomes dos fraudadores

Estas técnicas combinadas proporcionam uma capa protetora para os fraudadores. Quando se procuram os responsáveis por uma empresa, costuma-se encontrar outra empresa, laranjas, e talvez outras empresas. 

Tudo isto é feito para que a polícia e a receita federal não encontrem os verdadeiros responsáveis.

Lavagem do dinheiro sujo

Se você ganhar R$ 20,00 no jogo do bicho, tem dinheiro sujo nas mãos. Mas, ninguém liga. É ilegal, mas é uma mixaria. Se você comprar arroz ou cachaça com a merreca, ninguém notará. Mas, no caso do bicheiro, aquele que ganha uma montanha de dinheiro, ele não pode sair por aí gastando milhões sem origem. Tampouco pode depositar nos bancos. Então, antes de depositar e gastar, ele tem que lavar o dinheiro sujo.

Fernando Alves, por exemplo, adora se exibir de jatinho particular. Qualquer voo destes custa muitas dezenas, ou até centenas de milhares de reais. De onde vem o dinheiro que ele gasta nestes voos? Ele tem que explicar a origem. Mostrar que é de dinheiro lícito. É aí que entram as empresas de lavagem de dinheiro.

As igrejas são a melhor lavanderia de dinheiro que existe. Nada se compara. Mas, na falta delas, servem restaurantes, bares, motéis, fazendas. O crime organizado precisa de atividades como estas para lavarem seu dinheiro ilícito. Mas, as clínicas médicas também servem. Como esta Clínica Mais Médicos, usada por Daniel Vorcaro e Fernando Alves.

Um exemplo simplificado: a quadrilha precisa lavar R$ 5 milhões provenientes da venda de drogas. Ela passa para a clínica, que deposita o valor. Emite recibos e notas fiscais, como se tivesse feito dez mil consultas a R$ 500,00. Paga os impostos, e o que sobrar, está lavado e limpo. Agora os donos da clínica podem usar sem medo. Pode comprar carros, apartamentos, ou investir em mais negócios de fachada.

Fabricar dinheiro do nada

Estas empresas fictícias podem também fabricar dinheiro do nada. Como fez a quadrilha do Master. A clínica emitiu notas de crédito (NCs) que foram "compradas" pelo Banco Master. Numa explicação bastante simplificada, NCs são papeis que a empresa vende por um preço menor, para resgatar no futuro, por um preço maior. Digamos, a empresa venda R$ 100 milhões para o banco, mas só recebe R$ 90 milhões. Aí ela usa este dinheiro como quiser. No futuro, ela terá que comprar as NCs de volta, pagando os R$ 100 milhões. A diferença entre o que ela recebeu hoje, e pagará no número, é o lucro do banco.

Este tipo de negócio é comum. Ele pode ser feito em muitas modalidades, como debêntures, ações, cheques, promissórias, contratos. 

Na fraude, o banco é sócio da fraude. Ele sabe que as NC são frias. Mas, contabilmente, quando ele as compra, sai dinheiro vivo hoje, mas entram papéis que valerão dinheiro no futuro. 

Agora, imagine que o Vorcaro, dono do Banco Master, comprou estes papeis frios da Clínica Mais Médicos. Aí, ele vende estes papeis para o banco BRB, o bando do Distrito Federal. Agora, o BRB fica com o mico, e Vorcaro e seus sócios ficam com o dinheiro de verdade.

Mico

No mercado financeiro, mico são ações de baixo ou de nenhum valor. É algo que todos querem passar para a frente, mas ninguém quer receber. Mas, a expressão pode ser usada para qualquer título podre. Uma fria.  

Passar o mico prá frente é livrar-se dele. Arranjar alguém para ficar com o prejuízo.

Fernando Alves, a Clínica Mais Médicos e o Banco Master

Segundo a PF, foi isto que fizeram os envolvidos no golpe da Clínica Mais Médicos. O Hospital da Criança São José, e a Clínica Mais Médicos, ambas pertencentes ao grupo, mas registrada em nome da laranja Valdenice, emitiram R$ 733.623.684,00 em NCs.

Posteriormente, Vorcaro foi ao BRB que, a mando do governador Ibaneis Rocha (MDB-DF) se dispôs a pagar R$ 12 bilhões por estes títulos podres. O golpe se consuma com vendas como esta. E foi assim que o Banco Master formou uma dívida de mais de R$ 61 bilhões!

O que diz o MPF sobre Fernando Alves

No inquérito que tramita no STF, sob a relatória do Ministro Toffoli (PET 15.198/DF), entre outras acusações, diz o MPF, com base em relatórios da Polícia Federal:

Os sócios e a Laüt

Alguns nomes de pessoas e empresas citadas pelo Min. Relator, além de Fernando Alves são: 

  • Ricardo Balciunas;
  • André Beraldo;
  • Henrique Vorcaro (pai de Daniel);
  • Daniel Vorcaro;
  •  Natália Vorcaro (irmã de Daniel e mulher do pastor Zettel, preso);
  • Valdenice Pantaleão (laranja);
  •  Holding AF S.A.;
  • Simetria Planos de Saúde Eireli;
  • Hospital da Criança São José Ltda.;
  • ABM;
  • Três Vales;
  • Trancoso eco;
  • Life Corretora;

Dos nomes citados pela PF, MPF e STF, estes três estão diretamente relacionados à doação de R$ 3 milhões que a Cervejaria Läut recebeu da prefeitura de Bom Despacho. Doação sem contrapartida:

  • Fernando Alves
  • Ricardo Balciunas
  • André Beraldo

 
 

 

 

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