Alerta

Se você não é especulador, não coloque seu dinheiro em bitcoin

O Bitcoin já levou muita gente à falência. Agora está vindo mais uma leva.

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 09/02/2026 18:30
Se você não é especulador, não coloque seu dinheiro em bitcoin
Atualmente as criptomoedas servem a dois propósitos: ocultar dinheiro do crime organizado e tomar a poupança dos pequenos
Bitcoin é uma criptomoeda. É difícil explicar em termos simples o que são criptomoedas. É uma coisa que não existe em lugar algum, ninguém regula ou fiscaliza, praticamente não serve para comprar nada, mas vive de surtos em surtos. Enriquece alguns, empobrece a maioria. O ano de 2026 começou empobrecendo muita gente.

Queda mortal do Bitcoin

Em menos de quatro meses, o valor do Bitcon despencou de R$ 670 mil para R$ 319 mil. Ou seja, seu valor caiu à metade. O que isto representa para o cidadão comum, que acreditou na propaganda dos especuladores?

Em outubro de 2025 ele foi convencido de que o Bitcoin nunca ia parar de crescer. Estava muito apreciado. Portanto, era só comprar, esperar algumas semanas, e faturar alto. Este é o sonho dos simples.

Animada, a pessoa tirou os R$ 10 mil que estavam na poupança e comprou Bitcoin. É um farelo de Bitcoin. Algo em torno de BTC 0,0149. Cheia de esperança, foi descansar, na certeza de que aquele pó de criptomoeda ia voltar bem mais gordo. Contudo, se estivesse acompanhando as cotações, no Natal já estaria arrancando os cabelos. A poeira de BTC 0,0149 continuava a mesma, mas o valor em reais já tinha caído para uns R$ 8 mil.

O espertalhão que o convenceu a "investir" em Bitcoin continua otimista, dizendo que era só esperar. Ele esperou. Passados mais dois meses, o valor caiu para menos da metade. Aquele pó que começou valendo R$ 10 mil, agora só vale R$ 4.700,00.

Esta história, com valores maiores e menores, com moedas diversas, como dólar, euro, peso, denário, real, repetiu-se mundo afora. Transcorridos quatro meses, BILHÕES haviam desparecido. Virado pó. 

O que é moeda?

No sentido tradicional, moeda é qualquer objeto que pode ser usado para comprar. As primeiras moedas eram coisas e animais. Um agricultor comprava uma vaca dando três porcos em pagamento. A dona de casa comprava roupa dando frangos em pagamento. Este tipo de troca de mercadoria por mercadoria, de objeto por objeto, chama-se escambo. Mas, aí, o ser humano percebeu que alguns objetos eram raros, e podiam ser usados para simbolizar valor.

Entre os diversos povos, muitos objetos diferentes foram usados: conchas, sal, pedras, sementes. Mas, com o tempo, todos passaram usar pequenos discos de metal precioso, ou semiprecioso, como ouro e prata, ou ligas destes metais. Aí surgiram as moedas propriamente ditas.

Depois da invenção do papel e da imprensa, os governos começaram a imprimir dinheiro. No início, eles guardavam ouro e prata no cofre, e emitiam papéis que podiam ser trocados pelo metal. Eram as moedas lastreadas. Ou seja, a qualquer momento, você poderia trocar aquele pedaço de papel por uma certa quantidade de ouro.

Mais na frente, por decisão unilateral dos Estados Unidos, as moedas deixaram de ter lastro. O valor delas era dado pelo que o governo dizia, ou pelo que as pessoas acreditavam que elas valiam.

Mas, bem ou mal, a moeda metálica e a moeda em papel, todo mundo conhece. E quanto à moeda digital, ou criptomoeda? Esta é menos conhecida e mais difícil de explicar.

Criptomoeda

Cripto significa escondido, obscuro, secreto. Entre os computadores, há uma forma de comunicação chamada criptográfica. Nela, as nossas mensagens são embaralhadas de tal forma, que só consegue entendê-las quem tem uma chave própria. Criar chaves para lacrar e deslacrar estas mensagens é um ramo avançado da matemática. Muito sofisticado. Mas, é muito comum. Por exemplo, toda vez que você manda uma mensagem no WhatsApp, ela é criptografada antes de sair do seu celular. Quando ela chega no celular dos destinatários, ela é descriptografada.

A mesma coisa acontece quando você visita o seu banco usando a Internet. Ou, quando você visita qualquer página que comece com a expressão "https://...". Este "s" aí é de seguro. Ou seja, só pode ser lido por você (na tela do seu celular) e pelo dono da página.

Usando certas técnicas de criptografia, os programadores de computador inventaram "moedas" que são códigos muito complicados, armazenados de uma forma muito complicada, chamada "cadeia de blocos" (block chain, em inglês). A moeda nada mais é do que um número complicado destes, guardado num bloco. Mas, este número, e este bloco, só existem no computador. Não num computador. Não no seu computador, mas na "nuvem". Ou seja, em vários lugares, e em lugar nenhum em particular. Quem tem a chave própria consegue "sacar" a moeda. Ela pode ser dividida, vendida, somada, como qualquer número.

Isto é a criptomoeda: um número muito complicado, guardando uma cadeia de blocos (como se fossem as páginas de um caderno), que a pessoa só consegue pegar se tiver a chave própria. Esta chave, por sua vez, é outro número. 

Por trás desta moeda, não tem governo, não tem banco central, não tem papel, não tem lastro. Acredita nela quem quiser. Ela pode ser transferida de forma quase instantânea para qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo; pode ser divida quase infinitamente, e pode ser somada, criando valores maiores.

Clique aqui para ver uma explicação intuitiva do que é um número usado nas criptomoedas

Todo mundo sabe multiplicar dois números. Por exemplo, 5 x 5 = 25; 11 x 11 = 121. É fácil e rápido.

Agora, imagine dois números grandes. Por exemplo: 9.674.697.228.508.910 x 5.144.473.348.399.808

Demora tempo, mas qualquer pessoa, usando lápis e papel, pode encontrar o resultado 49.771.222.045.901.576.450.397.756.719.104. O único problema aí é o tempo. A pessoa levaria muito tempo. Mas, para um computador, seria nada. Um bilionésio de segundo, ou menos. Então, é preciso complicar mais. 

Vamos substituir os dígitos finais pelas letras A, B, C e D. Agora os número ficam assim: 9.674.697.228.508.9AB x 5.144.473.348.399.8CD. Para chegar ao número 49.771.222.045.901.576.450.397.756.719.104, você terá que substituir A, B, C e D sucessivamente pelos números 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e tentar. A dificuldade, portanto, é achar que números estas letras representam. Para descobrir, você teria que fazer esta multiplicação longa, em média, cinco mil vezes! Cinco mil tentativas!

Para ficar mais complicado, você poderia colocar três letras, quatro letras, cinco letras... Com três letras, o número médio de tentativas iria de cinco mil para 500 mil vezes!

Agora, imagine que todos os dígitos são letras cujo valor é desconhecido! Aí, em média, teríamos que repetir o cálculo 50.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 para achar o número! Isto vai ficando impossível, mesmo para um computador muito rápido. É aí que entra a chave: quem sabe a chave (quais os dígitos cada letra representa) fará o cálculo uma única vez. Com a chave, o cálculo é rapidíssimo para o computador.

As criptomoedas usam cálculos bem mais complexos do que este. Mas, o exemplo simples acima, feito por um humano, dá uma ideia de porque é impossível chegar à moeda sem ter a chave (no caso, o valor de todas as letras).

Em resumo, criptomoeda é um número que não pode ser encontrado se a pessoa não tiver a chave.

Para que servem as moedas?

As moedas têm duas utilidades básicas: meio de pagamento e reserva de valor

Meio de pagamento é quando você usa o dinheiro para comprar coisas, pagar serviços, tocar sua vida.

Reserva de valor é quando você usa a moeda não para comprar e pagar coisas, mas para guardar o seu dinheiro para uso futuro. Por exemplo, muitos brasileiros compram dólar ou Euro e guardam debaixo do colchão. Por quê? Porque estas moedas têm baixa inflação, são estáveis, têm amplo curso (todo mundo aceita) e não são voláteis (ou seja, seu valor não flutuam alucinadamente).

Qual destes papeis as criptomoedas desempenham?

Para que servem as criptomoedas?

As criptomoedas são praticamente inúteis como meio de pagamento. Isto porque não são aceitas no supermercado, no banco, na lavanderia, no cabeleleiro. Sim, é possível comprar algumas coisas, ou contratar alguns serviços. Alguns lugares aceitam, mas, são poucos. Poquíssimos. Não têm importância prática para a população de nenhunm país. 

Elas tampouco servem como reserva de valor, pois não atendem aos principais requisitos para isto: amplo curso, estabilidade, fácil aceitação, indestrutibilidade (como é o caso do ouro e da preta).

Na verdade, de forma definitiva, não se sabe nem mesmo se os mecanismos de criptografia e cadeia de bloco que usam são à prova de violação.

Apesar de não serem úteis nem como meio de pagamento, nem como reserva de valor, as criptomoedas têm duas características que as tornam atraentes para criminosos e para especuladores.

Utilidade para criminosos

Usando criptomoedas, criminosos conseguem transferir vastas quantias em dinheiro de qualquer país, para qualquer país, sem passar por nenhum controle. Eles têm apenas o trabalho de descobrir como transformar o dinheiro local em cripto. Quando precisarem de outra modeda, terão que descobrir como fazer a conversão. Mas, enquanto tramitam neste mundo virtual, o dinheiro fica praticamente fora do alcance da polícia. Coisa que não acontece com dinheiro mala, em cueca, ou no armário de um deputado em Brasília. Afinal, criptomoeda são invisíveis. Elas não podem ser tocadas.

No entanto, não vale a pena detalhar como bandidos realizam estas operações de entrar e sair do mundo virtual.

Anonimato no uso de criptomoedas

O Bitcoin, por si só, não é uma moeda totalmente anônima. Ela pseudo-anônima. Embora pessoas comuns não consigam saber de onde o bitcoin veio, e para onde vai, polícias como o FBI têm meios de rastrear sua circulação. Entretanto, como se trata de um jogo de gato e rato, os bandidos também conhecem meios para aumentar o anonimato. São técnicas que dificultam ou impedem a ação da polícia. Em muitos casos, mesmo que a polícia identifique que uma quadrilha adquiriu um lote de criptomoedas, pode ser impossível demonstrar que o dinheiro foi usado para algum fim ilícito. Se no país não for proibido comprá-las, será difícil demonstrar que houve crime.

Mas, ao lado do Bitcoin, há moedas mais anônimas, como o Monero. Esta é, naturalmente, mais difícil de rastrear.

 Especulação

A despeito do uso intenso das criptomoedas pelo crime organizado, sua maior utilidade está na especulação. Aqui, entender o mecanismo é simples, mas entender como uns poucos ganham e muito perdem, é mais difícil.

O conceito de especular com moedas é simples. Isto acontece com todas as moedas. Por exemplo, se você acredita que o dólar americano subirá daqui a uma semana, você compra dólares hoje. Se sua previsão estiver certa, você vende quando ele subir, e embolsa o lucro. O conceito é simples assim. A prática é mais complicada. Há muitos detalhes a ponderar. Muitas variáveis.

Porém, quando as vítimas da especulação são pessoas que não entendem o mercado de capitais, não entendem o mundo financeiro, a prática é mais simples. É como um conto do vigário. Basta convencer pessoas desavisadas de que é excelente colocar o dinheiro delas em criptomoedas. O Bitcoin vive principalmente desta simplicidade que habita a cabeça das pessoas que querem ganhar dinheiro fácil.

Volatilidade

Uma moeda é volátil quando seu valor muda com frequência, e de forma abrupta. O Bitcoin é extremanente volátil. E tem sido assim durante toda sua vida: ora dá um pulo para o alto, ora rola até o fundo do poço. Para se ter uma ideia, em outubro passado os 20 milhões de Bitcoins disponíveis no mundo valiam 2,5 trilhões de dólares. Hoje, menos de quatro meses depois, eles valem 1,2 trilhões. Menos da metade!

Quem está arcando com este prejuízo? Todo mundo que comprou em outubro e vendeu nas últimas semanas. Isto significa, em especial, as pessoas que compraram iludidas pelo salto anterior, mas que não têm estômago para suportar o prejuízo que estão sentindo. Com medo de perder mais, vendem. 

Quem sai ganhando? Ganham aqueles que têm dinheiro, conhecem o mercado, e têm estômago para suportar a vertigem da queda. 

Regra de ouro da especulação

A regra de ouro a especulação é comprar na baixa e vender na alta. O especulador segue esta regra. Ou, pelo menos, se esforça para segui-la. Já o cidadão comum faz o oposto: animado quando o Bitcoin sobe, ele compra. Muitas vezes, quando a moeda já chegou no topo. Mas, quando a moeda despenca, ele se assusta e vende. Aceita o prejuízo, que se torna definitivo.

Regra de ouro do poupador

Se você não é um especulador, mas um poupador; se você valoriza o seu dinheiro, fique longe do mercado de criptomoedas. Ele é volátiil, inseguro, altamente arriscado para quem não é especialista.

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