O mineiro Daniel Vorcaro sabia parecer rico: tinha vários jatos, casas em praias e apartamentos caros. Frequentava restaurantes com preços exorbitantes e tomava vinhos com preço tão alto, que pessoas comuns nem sabem que existem. Ele conseguiu toda a riqueza que ostentava em apenas cinco anos. Ou seja, aquilo que muita pensava ser um prodígio. Um gênio dos negócios.
A verdade, porém, é bem diferente. Diferente e feia. Feiura revelada quando a Polícia Federal prendeu Vorcaro no aeroporto, Ele estava fungindo num dos seus jatos. Este que tentava usarr, custava 200 milhões de dólares (um bilhão de reais), e poderia levá-lo a qualquer lugar do mundo, Ele foi preso, e o avião não decolou.
De zero a bilhões
Ninguém acumula bilhões de reais em cinco anos. Nem mesmo se ganhar na mega sena dezenas de vezes seguida. Isto, quando a mega sena está acumulada dezenas de vezes. Mas, como Daniel Vorcaro fez isto?
Mentiras, transações fraudulentas e amigos poderosos
Vorcaro começou comprando um banco falido, o Máxima. Ele havia sido fechado pelo Banco Central devido a suas transações fraudulentas. Varcaro comprou, reativou (não se sabe como) e disfarçou mudando o nome de Máxima para Master. É bom lembrar que Master significa mestre, mas também principal, importante, profissional, grande, De fato, com Vorcaro tudo foi grande, principalmente o seu golpe de mestre.
Para fazer o banco crescer - ou aparentar crescimento - Vorcaro obteve o apoio de deputados, senadores e governadores. Os dois mais destacados são o governador do Rio, Cláudio Castro, e do Distro Federal, Ibaneis Rocha. Cláudio Castro enfiou dinheiro público no Master. Por exemplo, o fundo de pensão dos servidores. Já Ibaneis Rocha foi além: queriam comprar com dinheiro do BRB, todos os títulos podres do Master.
Os retornos assombrosos
Para tomar dinheiro de pessoas simples, Vorcaro adotou uma estratégia simples, antiga, bem conhecida, e extremamente perigosa: começou a tomar dinheiro emprestado, pagando juros de agiota. Chegou a pagar 120% do CDI. Isto é assombroso, mesmo no Brasil, onde os juros já são altíssimos.
O que é CDI?
Simplificadamente, CDI (irmã gêmea da SELIC) é a taxa de juros que um banco paga a outro quando precisa de dinheiro. Atualmente ela está em quase 15% ao ano. A esta taxa, todos os bancos emprestam dinheiro entre si, e também emprestam ou tomam emprestado do Banco Central e ao Tesouro Nacional. Um negócio da China, para quem empresta.
Para arranjar mais dinheiro, os bancos lançam títulos chamados CDB (certificado de depósito bancário). Qualquer pessoa pode comprá-los. Geralmente os bancos pagam uma fração da CDI. Digamos, 95%, um pouco mais, um pouco menos, dependendo das circunstâncias, do valor e das necessidades do banco.
Aí vem o Master e oferece 120% do CDI. Digamos, 18% ao ano, em vez de 15%.
A Pirâmide
Nenhum banco pode viver tomando dinheiro a 120% do CDI. Se fizer isto repetidamente, será levado à falência, Afinal, seus concorrentes estão pagando taxas bem menores. Digamos, 95% do CDI, quem sabe 90% e até menos. Mas, um banco em estado de falência, precisa tomar dinheiro novo hoje para pagar suas dívidas de ontem. É uma pirâmide. O dinheiro entra por um lado e sai pelo outro. Como toda pirâmide, esta também não pode parar.
Os otários
Toda pirâmide precisa de otários. Estes são, principalmente, pessoas que não entendem do mercado financeiro e acreditam que podem ganhar dinheiro fácil. Farão piada com o colega que fez um investimento em CDB recebendo 95% do CDI, e se gabarão de ganhar 120%. Com isto, vão atrair novos otários, colegas, amigos e parentes que ele convence que é possível ganhar dinheiro fácil
Assim a pirâmide continua crescendo. Vai crescendo até não ter mais ninguém para entrar com dinheiro novo. É aí que ela quebra, e muita gente perde o dinheiro.
Os cúmplices
Pelas mãos de Vorcaro passaram muitos bilhões. Ele se relacionava com dezenas de deputados, muitos governadores e pessoas de alta visibilidade. Alguns, talvez tenham sido vítimas, mas outros foram verdadeiros cúmplices. Entre eles, o Governado do Rio, que colocou dinheiro de apostados nas mãos de Vorcaro. Caso especial é o do BRB, o Banco Regional de Brasília. Ele não apenas colocou dinheiro, ele queria comprar os títulos podres do Banco Master. Algo em torno de R$ 16 bilhões.
BRB é banco Público
O BRB é o Banco do Distrito Federal. Ele pertence ao povo do Distrito Federal. Mas, para tirar o amigo Vorcaro do apuro, o governador Ibaneis insistiu em comprar o banco quebrado. O Banco Central foi contra. Mostrou que o Master estava quebrado e valia nada. Mesmo assim, o presidente do Banco, com o apoio do governador, queria, porque queria comprar os papeis podres.
Como ficamos?
Por enquanto, o dono do Master está preso e o presidente do BRB foi afastado. Pelo tamanho do rombo, e pela grandeza do crime, é muito pouco. Mas, como Vorcaro só conseguiu aplicar golpe tão grande porque teve ajuda de políticos graúdos do Brasil inteiro, pode ser que fique por aí mesmo. Isto explica porque tantos políticos e senadores não querem a Polícia Federal investigando a corrupção grande.
Não seja vítima
No mundo das finanças e do comércio, se qualquer negócio parece bom demais para ser verdade, pode acreditar: é bom demais para ser verdade. Fuja. Não seja ganancioso. Não pense que você é mais esperto do que os demais mortais.