A intensidade das fraudes com peixes
Pesquisa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, geralmente conhecida como FAO (Food and Agriculture Organization), encontrou índices alarmantes de fraudes com peixes e frutos-do-mar. Estas fraudes ameaçam a saúde do consumidor, causam prejuízos a seus bolsos e colocam em risco a conservação de recursos naturais.
Riscos para a saúde
Os riscos para a saúde nos chegam de várias frentes. Como não há bom controle de origem, processamento e distribuição de pescados, as seguintes fraudes podem afetar a saúde do consumidor:
- Tratamentos proibidos ou usados de forma inadequada. Peixes de criatório (fazendas de peixes) costumam receber antibióticos, hormônios e corantes.
- Troca de espécies. No processamento, como filetamento, enlatamento, congelamento ou desidratação, muitas espécies nobres são substituídas por espécies menos nobres. Isto causa dano ao bolso do consumidor, mas pode também causar danos à sua saúde.
Os hormônios são usados para gerar peixes machos e favorecer o crescimento e a engorda. Embora os hormônios naturais dos peixes não pareçam ter efeito negativo nos seres humanos, os hormônios artificiais têm.
Os antibióticos são usados para afastar as doenças bacterianas, comuns nos criatórios. Mas são usados, também, por seu efeito colateral de incentivar a engorda.
Os corantes são usados para tornar os peixes mais atraentes, para falsificar espécies, ou para disfarçar doenças. Um exemplo conhecido é o dos salmões e das trutas salmonadas. Os salmões de cativeiro têm um colorido intenso, bem vermelho. As trutas, por sua vez, são brancas, ou acinzentadas. Mas, com a adição de corantes, elas ficam parecidas com salmão de cativeiro. Isto permite não apenas que tenham preço maior (devido à aparência), mas também que sejam vendidas como salmão.

Isto mesmo: muito salmão que se come por aí, na verdade, é truta salmonada.
Aí já entramos na outra fraude: a substituição de espécies: uma variedade muito nobre (salmão selvagem) pode ser substituído por uma variedade menos nobre (salmão de cativeiro). Um passo além é substituir o salmão de cativeiro por truta salmonada.
Mas isto não acontece só com salmão. A carne da tilápia, um peixe de baixo custo, cor clara e sabor quase imperceptível, é frequentemente misturada com outros preparados, tornando-os mais baratos.
E não para aí: quando o peixe é moído, repicado, ou incluído em pratos industrializados, ele pode também ganhar aditivos como farinhas, amido, algas e outros enchimentos.
Brasil e Argentina
Segundo o estudo da FAO, no Brasil e na Argentina, 21% dos peixes vendidos são substitutos. Ou seja, o consumidor não está comprando, ou comendo, o peixe que pensar estar comento.
O problema é o mesmo no mundo inteiro. Em alguns países, como os Estados Unidos, 25% das amostras coletadas pela FAO estavam falsificadas por substituição.
Substituição e saúde
A substituição pode esconder problemas de saúde. Um exemplo é quando se substitui o salmão selvagem –— que não tem antibiótico, hormônio ou corante –— por truta salmonada –— que tem os três.
Mas, não para aí. Há vários tipos de cavala, também conhecida como mackerel. A cavala do atlântico é extremamente saudável, com alto teor de ômega-3, e níveis baixíssimos de mercúrio. Já a cavala real é um peixe problemático, pois tem altíssimo teor de mercúrio. No entanto, um leigo pode ser facilmente enganado, e comprar um peixe não recomendado (cavala real) por um peixe muito recomendado (cavala do atlântico).

Substituição de origem
Há, ainda, a substituição de origem. Ela também coloca riscos à saúde. O mesmo peixe, criados em certas regiões, são saudáveis, mas, em outras regiões, são contaminados por metais pesados, especialmente o mercúrio. Quando o consumidor compra gato por lebre, ele pode estar comprando um veneno (mercúrio) junto com o remédio (proteína, ômega-3 e outras gorduras saudáveis).
Há outro problema nesta substituição: ele pode estar comprando peixe pescado em áreas e época em que é proibido pescar. Pescadores clandestinos os pescam e despacham como se viessem de outras áreas, onde a pesca é permitida. Este procedimento põe em risco a saúde e a produtividade do mar.
Medidas necessárias
Para proteger o bolso e a saúde do consumidor, e para garantir que os oceanos continuem sendo fonte de alimento saudável e permanente, a FAO propõe algumas medidas:
- Definir padrões internacionais de rotulagem de peixes
- Exigir que todos os peixes tragam o nome científico ao lado do nome local
- Criar sistema de rastreamento que garanta a verificação da origem do peixe
Dicas de proteção
Não há como evitar totalmente as fraudes, ou a compra de peixes contaminados. No entanto, há medidas que podem ajudar.
- Não se impressione pelas cores do peixe. Elas podem ser alteradas pela alimentação;
- Peixe bom é peixe verdadeiro e inteiro ou em postas. Se lhe chegar moído, empanado, misturado, há chances maiores de ter sido adulterado;
- Prefira os peixes da estação e produzidos mais perto de você;
- Peixes não carnívoros são mais seguros para sua saúde;
- Peixes pequenos, de crescimento rápido (como sardinha e cavala do atlântico) têm menos riscos de contaminação por metais pesados;
- Peixes grandes, carnívoros, no alto da cadeia alimentar têm alto risco de contaminação. O atum, por exemplo, é um peixe estritamente carnívoro, que está no topo da cadeia alimentar. Embora tenha alto teor de proteína de excelente qualidade, seu consumo frequente não é indicado, pois sua carne contém muito mercúrio.

Coincidência
Um dia após a publicação deste artigo, o programa Fantástico, da Rede Globo, publicou matéria que trata do mesmo assunto. A perspectiva é similar àquela adotada aqui. Você pode querer conferir: A febre da proteína: quando a busca pelo corpo perfeito pode até virar um transplante de rim.