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Do Sengue pro Cumbaro: a história do êxodo rural na língua da Tabaca

Em 1888 Bom Despacho viu a diáspora negra. Sessenta anos depois, viu o êxodo rural. Do Sengue pro Cumbaro reúne os dois.

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 03/03/2026 18:05
Do Sengue pro Cumbaro: a história do êxodo rural na língua da Tabaca
Como dois fenômenos distintos e separados por mais de meio século aparecem numa história infantil de 2025? "Do Sengue ao Cumbaro" reúne estes dois momentos marcantes.
O livro Do Sengue pro Cumbaro, de Benício Cabral, registra a língua da Tabaca num livro infantil. Por trás da pequena estória, estão dois fatos históricos importantes para Bom Despacho: as consequências da Lei Áurea e o êxodo rural da era Getúlio Vargas.

O bairro da Tabatinga tem nome indígena. Na língua geral brasileira (falada antes do português), tabatinga significa barro branco. Mas, pode significar, também, casa pequena, ou aldeia. As palavras se confundem porque os aldeamentos dos nativos eram chamados de taba. Mas, taba também significa barro, argila, e tinga, branco. Portanto, Tabatinga pode significar barro branco, casa branca ou aldeia branca.

Primitivamente, havia diversas tribos indígenas na região. Isto é comprovado pelas enormes igaçabas e outras peças cerâmicas encontradiças desde a região da Estrada do Pica-Pau, até a região da Extrema. Além dos nomes dos locais, como Piraquara, Capivari e Lambari. São todos nomes que herdamos dos nativos.

A tabatinga (argila branca), por sua vez, é encontrada no Vale do Picão, na Biquinha, em muitas manchas espalhadas por Bom Despacho.

Origem da Tabatinga

O fim da escravatura foi uma benção e uma maldição. Finalmente, os escravos estavam livres, mas a dura realidade é que não sabiam o que fazer. Não tinham para onde ir. Não tinham mais lugar nas fazendas, não tinham o que fazer nas cidades. Para substituir os escravizados, grandes fazendeiros de São Paulo e Minas trouxeram trabalhadores da Alemanha, Itália, Japão.

Os fazendeiros poderosos, mas menores, como os de Bom Despacho, substituíram os escravizados por colonos e meeiros brancos.

Os pretos forros ficaram ao léu.

Em Bom Despacho, espremidos para fora das fazendas, eles montaram seus casebres de pau-a-pique e sapé na Estrada da Passagem (Tabatinga) e na Estrada de Moema (Quenta-Sol).

Não que não tivesse havido antes alguns mocambos e quilombos. Eram formados por negros fugidos das minas de Pitangui. Algumas vezes havia com eles, também, indígenas e brancos muito pobres. Mas, os quilombolas foram dizimados pelos capitães do mato que se instalaram na Cruz do Monte, e de lá saiam para caçá-los, capturá-los ou matá-los.

O certo é que a Tabatinga se formou com êxodo de escravizados e talvez alguns raros remanescentes que possam ter sobrevivido à ação dos capitães de mato.

A Língua da Tabaca

Foi neste ambiente de negros forros, mas marginalizados pela sociedade, que a Língua do Negro da Costa resistiu ao tempo, embora somente em fragmentos. Segundo a bom-despachense Sônia Queiroz, que pesquisou o assunto na década de setenta do século passado, os falantes a chamam de gíria dos cativeiros, ou língua dos cuetes (língua do homem) (a obra de Sônia Queiroz, Pé Preto em Barro Branco, pode ser consultada aqui).

Posteriormente, o escritor bom-despachense Benício Cabral, em parceria com Ivã Rodrigues (o Comodoro), recolheu o Vocabulário da Língua da Tabaca. Este, posteriormente enriquecido com termos que coletados pela pesquisadora Sônia Queiroz. O vocabulário pode ser visto aqui.

Algumas famílias tiveram destaque na introdução e conservação da língua. É o caso das famílias de Dicoberto e Dona Fiota. Mas, em 1981, quando a professora Sônia fez sua pesquisa, restavam apenas 207 falantes.

Últimos falantes da Língua dos Cuete

De lá para cá, a língua praticamente sumiu. Restaram apenas algumas palavras, usadas em produtos comerciais.  Exemplos deste uso são o leite Mavero (úbere, peito, seio) a veterinária Cambuá (cachorro), o restaurante Carambóia (galinha). Ou uma ou outra palavra usada aqui e acolá, como tibangara (bobo) ou matuaba (cachaça).

Do Sengue pro Cumbaro

Escrito por Benício Cabral, o livro infantil Do Sengue pro Cumbaro é um resgate da língua do cuete. Na sua página na Amazon, a obra está descrita assim:

Do Sengue pro Cumbaro; um conto infantil, na Língua da Tabatinga. O livro foi todo escrito na Língua da Tabatinga, que é uma língua franca, autóctone, que surgiu e é falada no Bairro da Tabatinga, na cidade de Bom Despacho-MG. O Bairro da Tabatinga era, até os anos 1980, povoado quase que exclusivamente por negros, descendentes de africanos escravizados. O vocabulário da Língua da Tabatinga é uma mistura de palavras de origem africana, especialmente do ramo Banto, com o português vulgar. Trata-se de uma história infantil sobre duas crianças, dois irmãos, que viviam na zona rural e brincavam muito, além de ajudar os pais nas tarefas diárias. A vida era muito feliz e cheia de acontecimentos cotidianos que encantavam as crianças. Um dia o pai, que era empregado da fazenda, avisa para a família que foi demitido e deverá se mudar para a cidade. A família se muda para uma casinha pequena, no famoso Bairro da Tabatinga. As crianças são então matriculadas na escola pública e a sua vida muda completamente.

Segundo êxodo

É neste ponto que o livro faz encontrar os dois momentos. De forma altamente simbólica, ele reúne, pela língua dos cuete, o êxodo forçado dos escravizados de 1988, com o êxodo forçado dos colonos, acelerado no último governo de Getúlio Vargas. A década de 1950 viu centenas e centenas de famílias de colonos e meeiros saírem das fazendas e ocuparem a periferia da cidade.

Não foi por acaso, nem foi por coincidência, que nessa época foram implantados em Bom Despacho três alto fornos para produção de ferro gusa e surgiu o bairro Esplanada, voltado principalmente ao acolhimento das famílias que chegavam das fazendas.

O Brasil se urbanizava. A Língua do Negro da Costa, em Bom Despacho conhecida como Língua da Tabaca, Gíria dos Cativos, ou Língua dos Cuetes, entrava em declínio acelerado, tal como antes acontecera com a Língua Geral do Brasil e o Nheengatu.

Por isto, mais do que nunca, é importante registrar o que resta. Os negros e os caipiras são as nossas raízes. São as raízes de Bom Despacho, embora mais tarde enriquecidas com a chegada dos alemães e dos "turcos" (que na maioria das vezes eram sírios, libaneses e mascates!)

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Comentários (3)

Anônimo
Anônimo
03/03/2026 18:29

Seria uma experiência valiosa para os alunos, principalmente os da rede municipal de ensino, trabalhar a obra e conhecer a origem da Língua da Tabatinga!

Benício
Benício
03/03/2026 19:15

Excelente! Eu penso da mesma forma.

Anônimo
Anônimo
06/03/2026 17:52

Se houvessem resquícios dessas localidades, construções, e outros registros memoriais seria possivel titular a terra para os descendentes. Por meio da Fundação Palmares.