Igrejas na lavagem de dinheiro
Dinheiro ganho de forma ilícita precisa ser lavado. Por causa da proteção que gozam, as igrejas são boas lavanderias. Mas, por que o dinheiro precisa ser lavado, e por que as igrejas são boas lavanderias?
Dinheiro ilícito
Há muitas fontes de dinheiro ilícito: a venda de celulares e carros roubados; o assalto a banco; o jogo do bicho; a venda de drogas; as casas de apostas sem registro. Quando os valores são pequenos, como o resultado do furto de um celular, o ladrão gasta no supermercado, na zona do meretrício, ou no boteco da esquina. O fato pode passar despercebido.
Mas, quando os valores são altos, envolvendo milhares, milhões, ou até bilhões de reais, a situação muda. Como uma pessoa que tem um emprego de R$ 5 mil por mês, vai justificar que comprou uma casa R$ 5 milhões, ou um avião de R$ 50 milhões? Não tem como.
É aí que entra a lavagem de dinheiro. Esta operação nada mais é do que fazer com que um dinheiro que tem origem ilícita, como o tráfico de droga, pareça ter uma origem lícita. É esta transformação que se chama lavagem, ou branqueamento de dinheiro.
Os bandidos são criativos. Há muitas formas de fazer isto. As igrejas evangélicas são uma delas.
As igrejas lavanderias
A lei brasileira protege as igrejas. Para começar, elas não pagam impostos. Elas não são fiscalizadas. Em muitas denominações (não todas!), os pastores exigem que seus fieis paguem dízimos. Em algumas, a exigência vai além: os pastores prometem prosperidade para quem der dinheiro e doar seus bens à igreja (de novo, não são todas).
Aí vem a parte interessante. O governo não controla este dinheiro. Não há recibo. Não precisa haver nem conta bancária. O recebimento pode ser em dinheiro vivo, mas pode ser também em cheque, em cartão de crédito, pix ou doação de bens.
Quanto de dinheiro a igreja tem? O tanto que o pastor declarar. E, o que é mais importante: Todo dinheiro que ele receber, dirá que é dízimo, ou doação.
Agora, digamos que a igreja tenha 200 fieis dizimistas. Cada um contribui com R$ 150,00 por mês. Isto dá uma renda de R$ 30 mil para a igreja. Ele deposita no banco, em nome da igreja. Depois tira uma parte para sua própria subsistência. É o seu salário de pastor. Isto ele vai declarar à Receita Federal como renda. O que sobrar, ele usar em obras sociais e na manutenção da igreja.
Tudo certo e dentro da lei.
Aí, o pastor desonesto faz um acordo para lavar dinheiro do crime. Um traficante lhe entrega, em dinheiro vivo, R$ 200 mil. O pastor deposita na conta da igreja como se fosse dízimo ou doação em dinheiro. Agora, ele tira uma "comissão", e devolve o dinheiro lavado para o bandido.
Como ele devolve? Várias formas. As mais comuns, são mediante pagamentos por obras e serviços que não existem. O bandido entra com R$ 200 mil sujos, sai com R$ 150 lavados, e o pastor embolsa R$ 50 para fazer o branqueamento.
Este é um exemplo bem simplificado de como algumas igrejas e pastores ficam ricos lavando dinheiro sujo para o crime.
Zettel e Vorcaro
O esquema de Vorcaro e seu cunhado Zettel é bem mais abrangente e complicado do que o descrito acima, mas, a forma como o dinheiro é lavado é a mesma: o dinheiro sujo entra por um lado, e sai limpo do outro, mediante o pagamento de uma certa comissão para o lavador.
No caso do Varcaro e do Zettel, eles lavavam o próprio dinheiro sujo. Juntos, eles tinham a seu serviço várias dezenas de empresas usadas para aplicar golpes. Empresas na área hospitalar, construção civil, bancos, corretores de valores, igrejas, fintechs. Um verdadeiro império do crime.
Ajudando a acobertar tudo isto, e tirando proveito próprio, estão os políticos: deputados estaduais e federais, senadores, governadores. Alguns policiais, provavelmente juízes e ministros.
O medo
É por tudo isto que, desde a prisão de Zettel e de Vorcaro, que muitos políticos estão sem dormir. É também por isto que, já faz tempo, alguns políticos, como o Deputado Nikols Ferreira, têm mentido sobre o monitoramente do PIX e das transações financeiras.
Zettel, por exemplo, declarou ter recebido rendimentos de R$ 66 mil. No entanto, movimentou R$ 100 milhões em apenas setes meses. Ou seja, mais de R$ 14 milhões por mês. É por causa destas contas que não fecham que tantos políticos têm medo do monitoramento das transações.
Segundo a Polícia Federal, Zettel movimentava dinheiro para pagar propinas. Um dos casos, envolve o pagamento de propina para que servidores do Banco Central fizessem vistas grossas para as operações ilícitas do Banco Master.