Alerta

Em concurso e vestibular, Rolando Lero leva zero. Merecido.

Aluno faz redação acaciana e reclama de levar zero!

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 29/03/2026 08:31
Em concurso e vestibular, Rolando Lero leva zero. Merecido.
O vestibulando poderia ser chamado de Conselho Acácio da Fuvest: grave, pomposo, pretensioso, afetado, sentencioso, ridículo, fátuo são classificações que lhe pegariam bem.
Coesão, clareza, simplicidade, ordem direta, frases curtas e palavras comuns são alguns dos atributos de um bom texto. Em se tratando de concurso ou vestibular, aplica-se uma exigência que se sobrepõe aos demais: "ater-se ao tema". O vestibulando Luis Bessa conseguiu quebrar todas as regras. Por isto, tirou zero na redação. Insatisfeito, entrou na justiça para que a banca justifique o zero.

Leia o texto e dê sua opinião. O tema era “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”.

Intentona pela Reconstituição da Interioridade 

Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão — significado — múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia. 

Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana — de Pierre Bourdieu — a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada. 

Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno — era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão. 

Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes. 

Ler e interpretar este texto é como desenroscar um emaranhado de arame farpado enferrujado. Com paciência, jeito e boa técnica, a gente pode até conseguir, mas vale o esforço? Provavelmente não.

Primeiro, é óbvio que o autor pretendeu apenas impressionar, exibindo um vocabulário supostamente erudito e clássico, combinado com neologismos de utilidade duvidosa ("comodificação", por exemplo).

O tema proposto era o perdão, como ato condicionado ou limitado. Dá trabalho encontrá-lo no texto nota zero. Ele está lá, mas disperso, difuso e oculto sob uma cachoeira de palavrões. Isto, por si só, já justificaria o zero.

Índices de legibilidade

Submetemos o texto a onze índices de legibilidade. Ele foi reprovado em todos. Não apenas reprovado, mas com nota máxima de reprovação. Ou seja, estruturalmente, é um texto de péssima qualidade. Mas, o que são índices de legibilidade? Eles são números calculados com base em critérios diferentes, mas que convergem para uma ideia simples: frases curtas, palavras menores e mais conhecidas facilitam a leitura e melhoram o entendimento.

O texto do aluno nota zero deu os seguintes resultados:

Índice Nota Ideal
Alberto Dines 21 10 ou menos
Linsear Write 21 10 ou menos
ARI (Automated Reading Index) 20 10 ou menos
Gunning Fog 23 10 ou menos
Coleman-Liau Index 26 10 ou menos
Crawford 17 9 ou menos
Flesch-Kincaid Reading Easy 2 70 ou mais
Flesch-Kincaid Grade 24 10 ou menos
Forcast 12 9 ou menos
LIX 60 29 ou menos
SMOG 20 11 ou menos

Ou seja, o texto foi reprovado nos onze diferente testes de análise de legibilidade. O primeiro que aparece na tabela foi criado pelo jornalista brasileiro Alberto Dines. Segundo ele, textos com índice acima de dez são de leitura difícil. Quanto mais alto o número, mais difícil. O resultado deste texto (21) está acima da tabela. Os demais são testes desenvolvidos nos Estados Unidos.

Flesch-Kincaid Grade

O teste Flesch-Kincaid Grade, informam o número de anos de estudo para que a pessoa possa entender o texto. Normalmente o índice não deve passar de 18, pois este é o nível apropriado para pessoas com pós-graduação. Assim, o número 24 extrapola qualquer expectativa de texto legível. Exceto por um Chapolion. 

Outras dificuldades

As análise acima levam em conta a disposição a construção do texto, como o tamanho das palavras (sílabas), o número de palavras por sentença e a quantidade de sentenças por parágrafo. Quando se computa a raridade das palavras e suas mútuas relações semânticas, é possível constatar que o resultado é pior ainda.

Lições

O aluno nota zero ou é um grande exibicionista, ou foi muito mal orientado quanto ao que fazer numa redação de concurso público ou vestibular. Nestas provas, o primeiro item a ser avaliado é a pertinência com relação ao tema proposta. Não se pode fugir dele nem por um milímetro. No entanto, o aluno parece ter-se esforçado para fazer o contrário: ocultou o tema tanto quanto pode.

Depois do tema, alinham-se os demais requisitos: clareza, coesão, coerência, fluidez e demais atributos que tornam um texto de fácil compreensão e de leitura agradável.

Enfim, nesta redação, embora tenha demonstrado um vocabulário acima da média para sua idade e escolaridade, o vestibulando mostrou não ter aprendido as regras da boa redação. Em especial, não aprendeu as regras da redação nota 10 para fins de concurso e vestibular. Um zero mais do que merecido.

O texto explicado

O texto nota zero pode ser reescrito para ganhar pelo menos um oito. Não se pretende criar aqui o melhor texto possível, mas sim, fazer um resumo do que o autor nota zero quiser dizer com seu texto grandiloquente de matiz acaciano:

A tecnologia criou uma tempestade que nos sufoca e compromete nossa identidade. Autores como Djaimilia de Almeida e Pierre Bourdieu mostram que fomos condicionados a aceitarmos a violência invisível e silenciosa que nos cerca e que nos envolve numa rotina vazia, na qual nossos sentimentos perdem o sentido.

Neste ponto, mesmo o perdão não passa de mercadoria. Não é mais um ato de liberalidade que nos liberta de erros passados, mas uma moeda de troca, mais um produto, negociável como qualquer outro. Neste cenário, quem não tem o que trocar, não pode obter perdão.

A busca pelo lucro nos desumanizou, nos fechou num sofrimento solitário e desesperado, pois até o alívio da alma exige um pagamento. 

Qualquer perdão pode ser limitado ou condicionado, mas, no mundo atual, o perdão está condicionado tão-somente pelo poder aquisitivo de cada um.

0
334
2

Comentários (2)

Anônimo
Anônimo
29/03/2026 11:19

Os critérios das pontuações avaliam se o texto tem como característica a legibilidade (principalmente na citação ao Dines), não se ele é o melhor texto. Os critérios da Fuvesp é que devem ser levados em conta se eles preveem a legibilidade.

Fernando Cabral
Fernando Cabral
29/03/2026 12:43

Acho que não entendi seu comentário. Não há dúvida de que, para fins de avaliação pela Fuvest, valem os critérios que estão no edital. Segundo trais critérios, a nota foi zero. Quanto aos testes de legibilidade (como o Dines), foi apenas uma curiosidade. Mas, também eles deram zero ao texto ("nebuloso" ou "incompreensível"). Finalmente, nem a Fuvesp, nem os índices de legibilidade avaliam se o texto é "o melhor". Eles apenas dão uma pontuação, ou índice.