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Ártemis revela o tamanho da ignorância das redes sociais

Irmã de Apolo, Ártemis era a deusa grega protetora dos animais e das mulheres. Hoje, é o centro das fake news.

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 11/04/2026 12:38
Ártemis revela o tamanho da ignorância das redes sociais
A NASA deu o nome de Ártemis ao projeto que retomam as viagens do projeto Apolo. Mas, ninguém poderia imaginar que este projeto revelaria o mar de ignorância das redes sociais.

Após longa viagem, o módulo Orion do projeto Ártemis amarou em segurança. Astronautas sãos e salvos. Um feito espetacular da Ciência e da Engenharia Espacial. Enquanto isto, nas redes sociais, um monstro colocava sua cabeça de fora: a ignorância dos influenciadores e seus seguidores. 

As duas fotos da capa foram divulgadas pela NASA. Na da esquerda, a Terra fotografada em 1972, pela Apolo 17. Na da direita, a Terra fotografada pela Ártemis II, em 2026. As diferenças entre as duas imagens foram suficientes para disparar MILHÕES de publicações e BILHÕES de comentários "provando" que as imagens são falsas.

Não só "provando" que as imagens são falsas, mas também que não há viagens especiais e que não houve nem voos da Apolo, nem da Ártemis.

Porém, estas afirmações provam — e provam de fato — só uma coisa: como as pessoas estão se tornando ignorantes. E pior: se sentindo orgulhosas disto. 

Ficará para depois a discussão das múltiplas provas da ida do homem à Lua. Aqui, trataremos apenas da ignorância que cerca aqueles que acham que uma das fotos é falsa. Ou as duas, como acham alguns mais radicais na sua burrice.

A "provas" dos ignorantes

Para acompanhar o que segue, observe ambas as fotos. A da esquerda é a antiga; a da direita, a nova.

Primeiro, vou listar os "argumentos", depois, mostrar por que estão errados. E vou, também, dar algumas dicas de como imitar na sua casa, os efeitos que você vê nestas e em outras fotos da NASA. Antes, porém, vale esta advertência:

🔔Ao ver fotos atribuídas à NASA, confira. Os "influenciadores" estão editando muitas fotos para "provarem" que foram fabricadas pela NASA. Não caia nestas enganações. Em outras matérias vou dar alguns exemplos desta farsa.

Alegações

  • A foto da esquerda está clara, a da direita está escura
  • A Terra está diferente
  • O sol está atrás da Terra, como pode ter luz para fotografar?
  • Se as câmaras fotográficas de hoje são melhores do que as de 1972, por que a foto atual está mais feia?

Explicações

  • A foto da esquerda está mais brilhante, mais contrastada e mais detalhada do que a da direta. O motivo é simples: a da esquerda foi feita com a Terra iluminada com o sol de frente. Já a da direita, foi feita à noite, com o sol atrás da Terra. É uma foto de contra-luz. Todo foto assim é menos detalhada e menos brilhante (veja mais abaixo).
  • Sim, a Terra está diferente. Há vários motivos para isto. O primeiro, é o explicado acima: foto noturna x foto diurna. Igualmente importante, é que a Terra (ela gira!) está em posição diferente. Tanto que, na primeira, você vê facilmente o estreito de Bab-al Mandab e o Canal de Suez, entre Djibuti e Iêmen, com a África à esquerda. Na da direita, você não consegue ver o estreito e o Canal de Suez.
  • Sim, o Sol está atrás da Terra. Isto faz a foto particularmente interessante. Isto exigiu o uso de uma boa câmara e um fotógrafo com bastante conhecimento. Como isto é possível?

    A técnica se chama de "luz rebatida", ou "contra-luz". Ela está demonstrada na imagem abaixo. Vamos analisá-la:

    A bola maior, à esquerda, foi feita com luz do lado da câmara, um pouco elevada. Esta é a iluminação parecida com a iluminação da Terra, na foto de 1972. Já a bola à esquerda foi fotografada com a luz no fundo (contra-luz). Agora, como isto foi feito? Como é possível fotografar "no escuro"?

    Bom, a luz do fundo passa por fora da bola e bate na parede atrás da câmara e volta para a bola. No caso da foto da Terra, a Lua fazia este papel da parede. A luz do Sol passa pelas laterais da Terra, bate na Lua e volta para a Terra. Por isto ela é chamada de luz rebatida. Mas, como parte da luz é perdida, e outra parte é absorvida pelo solo lunar, a quantidade que volta à Terra é bem menor do que quando há luz direta.

    Numa fazenda, sem luzes artificiais, você pode conferir isto em noite de lua cheia. Tudo em volta ficará bem iluminado, mas de forma fraquinha, nunca como o sol.

    Aí entra o conhecimento do fotógrafo. As câmaras têm dois recursos para aumentar a captura da luz. Um se chama diafragma, outro se chama exposição. Para entender, imagine que a lente da câmara seja uma torneira. Se estiver saindo pouca água, você pode abrir mais a torneira. Isto faz passar mais água. É o que faz o diafragma da câmara. Ou, você pode esperar mais tempo, até que corra mais água. É o que faz o obturador, que controla o tempo que a câmara recebe luz.

    Com estes dois recursos, você pode fazer uma foto clara, mesmo com pouca luz. Veja o exemplo nas imagens abaixo.

    A iluminação é a mesma. Ela sempre vem do outro lado da bola, do fundo. Uma pequena parte é refletida (rebatida) pela parede e volta para a bola. Aí, abrindo mais o diafragma da câmara, e aumentando o tempo de exposição, vamos "juntando" mais luz, até a foto ficar clara. 

    Foi isto que o astronauta fez para fotografar a Terra com o Sol no fundo. Mas ele utilizou outro truque que também pode ser utilizado: aumentou a sensibilidade do "filme". Ou seja, há filmes que precisam de mais luz, e outros que precisam de menos. Isto se chamam sensibilidade, e graduada numa medida chamada ISO. Nas câmaras antigas, você tinha que trocar o filme para aumentar a sensibilidade. Nas câmaras eletrônicas modernas, basta você girar um botão e aumentar.

  • Finalmente, é verdade que a foto atual está "mais feia"? Bom, feiura é questão de opinião. Mas, podemos discutir a questão técnica. Em termos de detalhes, contraste e brilho, uma foto de contra-luz nunca terá a mesma qualidade que a foto de um objeto iluminado de frente. Além disto, a foto de 2026 registra a aurora boreal e o nascer do sol. Na foto, onde são vistos, a região é mais clara do que a Terra. Se o fotógrafo clareasse muito a Terra, estes locais ficaram "estourados". Ou seja, perderiam totalmente os detalhes e nuances. 

    Observe isto na reprodução ao lado. No canto superior direito, você vê a aurora boreal. No canto inferior direito, você vê o sol começando a aparecer por trás da Terra.  Esta é uma foto perfeita!

  • E os equipamentos de 2026, são tão melhores do que os de 1972. Sim e não. As câmaras de um celular, por exemplo, são uma impressionante obra de engenharia. No entanto, a ótica nunca mudou. As leis que regem o comportamento da luz nunca mudaram. As leis de perspectiva, também não. Então, fundamentalmente, tudo que vale agora, já valia em 1972. Onde estão as mudanças que interessam ao caso?

    Para a realização desta foto, a única mudança importante está na sensibilidade do sensor. Em outras palavras, no valor ISO. Em 1972, os filmes coloridos disponíveis estavam na faixa de 400 ASA (ASA a nomenclatura mais comum da época). A câmara utilizada tinha sensor com ISO de 151000. Portanto, cerca de 377 vezes mais sensível do que os filmes coloridos de 1972. Portanto, a foto que o astronauta fez em 0,25 segundos, teria exigido 9,5 segundos na câmara antiga. Mas, considerando a velocidade da nave Ártemis II, a foto ficaria borrada. Por causa disto, foto igual seria praticamente impossível em 1972, mas não devido à questão da iluminação de contra-luz.

Não seja um tolo da Internet

Tem muita bobagem na Internet sobre o Projeto Ártemis. Não seja um tolo guiado por outros tolos. Procure informações confiáveis em universidades, institutos de pesquisa e organizações especiais. Há dezenas delas no mundo, com destaque para a Rússia, China, Índia, França, Japão.

Você também ler livros de física, ou consultar seu professor de ciência. Até mesmo nas redes sociais há pessoas muito esforçadas, esclarecendo estas coisas. Mas, fique alerta: as notícias que tentam desmentir a NASA geralmente são falsas. Quase sempre feitas por pessoas que não têm conhecimentos nem da escola primária.

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