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A Economia, a Ignorância e a Dissonância Cognitiva

Por todos os parâmetros, a economia brasileira vai bem. Por que, então, muita gente grita que ela vai mal?

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 03/12/2025 08:36
A Economia, a Ignorância e a Dissonância Cognitiva
A ignorância comum é um estado inicial que pode ser resolvido com a busca do conhecimento. A dissonância cognitiva é um conflito psicológico que incentiva a ignorância deliberada

 

Bolsa, dólar, petróleo, emprego e tarifaço

A Bolsa de Valores explodiu nos últimos três anos. Cresceu 34%, saltando de 120 mil para 161 mil pontos. O maior crescimento das últimas décadas. Sob a ótica capitalista, aumentos da bolsa indicam crescimento, da economia e confiança no governo. Confiança que pode ser constado por um fato simples: metade do crescimento atual da bolsa se deve à chegada de capitais estrangeiros. Se o investidor de fora vem comprar ações aqui, isto significa que ele acha o mercado seguro e lucrativo.

O dólar caiu e se estabilizou em torno de R$ 5,3. A queda e a estabilidade também indicam confiança no Brasil. É bom para quem viaja para fora, é bom para quem negocia com o exterior.

A exportação de petróleo cresceu bastante. Isto tem contribuído para um balanço positivo da balança comercial.

O desemprego, na casa dos 5%, está no mínimo histórico. Quatro anos atrás, estava na casa dos 15%. Considerando a população economicamente ativa (146 milhões), a queda mostra que cerca de 14 milhões de brasileiros que estavam desempregados quatro ou cinco anos atrás, agora estão empregados.

O tarifaço de Trump ameaçava ser um grande petardo na economia brasileira. Depois das negociações, mostrou-se um traque. Embora alguns setores tenham sentido o golpe - e ainda não tenham se recuperado - o impacto na balança comercial foi relativamente pequeno.  Em parte, porque o governo abriu novos mercados; em parte porque as tarifas foram caindo, e continuam caindo. Além disto, a melhora interna da economia permitiu que a população consumisse parte dos bens anteriormente exportados.

Estes ganhos da economia estão sintetizados nos quatro gráficos abaixo. Mais abaixo, veremos o que isto tem a ver com a ignorância e com a dissonância cognitiva.

Indicadores econômicos
Evolução de alguns indicadores econômicos

O que é Ignorância

Ignorância é um estado de não saber, de desconhecer. É uma situação normal e natural nas pessoas. Nós nascemos ignorantes e morremos sabendo quase nada. 

Ter consciência da própria ignorância é o início do conhecimento. Quando sabemos que não sabemos, temos a oportunidade de procurar saber. Começamos a perguntar, estudar, pesquisar. Ser ignorante e ter consciência da ignorância não é defeito, é qualidade. Não ter consciência da ignorância, é defeito. Quem não sabe que não sabe, não procura saber. Este é o fundamento a frase atribuída a Sócrates: só sei que nada sei

Dissonância Cognitiva

Dissonância, numa definição prática, é a emissão simultânea ou sucessiva de sons que não combinam. São desagradáveis, desarmônicos, conflituosos.

Dissonância cognitiva é um conflito não sanado entre crençarealidade. Ou entre duas crenças, atitudes, valores ou comportamentos que a pessoa sustenta, embora sejam incompatíveis entre si. Pessoas inteligentes, quando percebem um conflito entre suas ideias, teorias ou crenças, buscam resolver o conflito. Esta resolução pode vir de um conhecimento mais aprofundado, ou do abandono das  teorias, crenças ou ideias que não se encaixam no modelo de mundo.

Mas, quando a pessoa tem pouca inteligência, ou é tão ignorante que não conhece sua própria ignorância, ela não resolve o conflito, ela o esconde, disfarçando a dissonância. 

Dissonância cognitiva de fumantes

Todo fumante sabe que fumar faz mal. Quem quer saúde não deve fumar. É um conflito. Para superá-lo, a pessoa inteligente para de fumar. A pensa que quer continuar fumando, elimina (sua cabeça) o conflito, arranjando desculpas. Por exemplo: a) fumo, mas faço exercício e como bem, para compensar; b) a imprensa exagera o perigo do cigarro. Não é tanto assim não; c) meu avô fumava e viveu até 80 anos.

Com estas justificativas (que não justificam  nada), o fumante continua fumando.

Dissonância cognitiva entre evangélicos - judeus e muçulmanos

Recentemente, algumas igrejas evangélica começaram a defender os ataques de Israel a Gaza, que resultou em dezenas de milhares de crianças mortas. Os evangélicos desta linha, carregam a bandeira de Israel, usam camisetas com os símbolos de Israel.

Ora, o judaísmo é a única religião explícita e fundamentalmente anti-cristã. Para os judeus, Cristo foi terrorista, traidor, herético e blasfemador. O sumo sacerdote Caifás e o Sinédrio (tribunal judeu) não tinham poder para executá-lo, então fizeram intriga para que os romanos o executassem por crime de sedição. Para isto, inventaram que Jesus se intitulava "Rei dos Judeus", uma coisa que os romanos castigariam com a morte. 

Contudo, Pôncio Pilatos viu que Jesus era inocente. Como os judeus insistiam na morte dele, Pilatos o mandou para Herodes. Herodes também reconheceu a inocência de Jesus, e o devolveu a Pilatos. Os judeus insistiam em matá-lo.

Finalmente, Pilatos tentou um truque para salvar Jesus. Ele ofereceu uma escolha aos judeus: eles poderiam escolher entre crucificar Jesus ou o criminoso Barrabás. Os judeus escolhem mata Jesus e soltar Barrabás.

Pilatos cumpriu sua palavra. Mas, antes de mandar que levassem Jesus, ele se lavou e disse que não queria ter o sangue daquele inocente em suas mãos.

Os judeus nunca reconheceram Jesus como profeta. Menos ainda como filho de Deus. Trataram-no como um estorvo. Desde então, os judeus (especialmente os sionistas), são intolerantes com os cristãos (cuidado: nem todo judeu é intolerante, mas o governo de israel, e muitas autoridades religiosas o são).

Já os muçulmanos têm Jesus como profeta. Eles reconhecem Maria (Maryam), os apóstolos, e os ensinamentos de Jesus.

Ironicamente, os muçulmanos estão mais próximos dos evangélicos do que dos católicos. Eles não aceitam a santíssima trindade e não reverenciam imagens. 

Mas, como os evangélicos dessa linha admiram e apoiam Israel no genocídio, eles passaram a viver uma dissonância cognitiva. Para resolvê-la, criaram a fantasia de que os judeus são cristãos, e que os palestinos são anti-cristãos. Exatamente o oposto do que acontece desde a morte de Cristo! Com esta inversão, conciliaram um gigantesco conflito entre crença e realidade.

Dissonância cognitiva na economia

Com a economia brasileira, está acontecendo o mesmo. Aqueles que são contra o governo Lula por ideologia (não pelos fatos), se recusam a considerar a realidade. Negam-na. Mas, como os números contrariam suas crenças e expectativas, o jeito é fazer como os fumantes: dizer que é mentira da imprensa, que não é bem assim, que os números são falsos.

Uma coisa é ter um projeto político de país diferente. Discordar do estilo de gestão. Outra coisa é negar a realidade.

Não há remédio exógeno

Ninguém pode impingir um remédio externo para superação honesta da dissonância cognitiva. Só quem sofre dela pode fazê-lo. Mas, para isto, primeiro, tem que reconhecê-la em si próprio; depois, tem que decidir fazê-lo. Aí, sim, começa a estudar, pesquisar e vencer sua ignorância. Pode procurar fontes, conferi-las, criticá-las, encontrar alternativas. Tudo isto exige capacidade crítica e coragem para mudar de ponto de vista.

Mas, a alternativa mais confortável é deixar tudo como está. Basta fechar os olhos à realidade e continuar vivendo num mundo paralelo, numa bolha na qual o conflito, magicamente, se torna invisível.

Ou seja, assumir a ignorância de forma deliberada.

É escolha. Mas nem sempre o ignorante está em condições de escolher. Sua própria ignorância o impede. Afinal, manter-se na ignorância não exige trabalho, esforço, energia, senso crítico e vontade de saber um pouco mais.

 
 

 

 

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