A Esquerda salvou e continua salvando o Capitalismo no Brasil:
Para iniciar o assunto e, a título de exemplos, faço referência a duas obras importantíssimas na doutrina econômica brasileira: “Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro” e “O Capitalismo Tardio”. A primeira é de autoria da Professora Maria da Conceição Tavares e a segunda do Professor João Manuel Cardoso de Mello, ambos de Esquerda, ambos meus Professores no Mestrado de Economia na Unicamp, em 1982/83. As duas obras, com visões e abordagens diferentes, mostram como foi difícil, porém significativa, a industrialização no Brasil, a mesma industrialização que os Bolsonaros agora querem destruir, de forma desavergonhada e submissa.
O Capitalismo Tardio:
Na sua obra, João Manuel defende que o Capitalismo brasileiro, em razão do regime de escravidão e da total submissão a mercados consumidores estrangeiros, passando pela Metrópole, Portugal, não era um Capitalismo de verdade, justamente pela ausência de demanda efetiva interna.
Ademais, era dependente da Europa e não tinha autonomia e capacidade de se autodesenvolver. Essa lamentável herança da colonização só foi superada após o fim da escravidão e com o surgimento de uma Classe Trabalhadora assalariada. O pagamento de salários é condição indispensável para a existência do Capitalismo, porque os produtos precisam ser vendidos para alguém e esse alguém precisa ter dinheiro para gastar.
A Substituição de Importações:
A Professora Conceição Tavares, que foi Deputada Federal pelo PT-RJ entre 1995 e 1999, mostra que a industrialização do Brasil [cabe dizer, en passant, que essa importante industrialização colocou o Brasil entre as 10 maiores economias do mundo] só foi possível em razão de fatores externos, fora do controle dos Governos e dos empresários brasileiros.
Em suma, o Brasil sempre foi uma economia exportadora de commodities, ou seja, de produtos primários de pouca industrialização (pouco valor agregado), como o pau-Brasil, o açúcar, o café, o ouro e sempre importou todos os produtos manufaturados/industrializados de que necessitava, como maquinário, equipamentos agrícolas, tecidos, bens de consumo manufaturados etc.
Para ser mais exato, importava produtos de que a Classe Aristocrática necessitava. Ou seja, enquanto os Aristocratas vestiam seda, casimira e linho britânicos, os pobres e os escravos vestiam roupas de algodão toscas, feitas em máquinas de fiar artesanais ou em pequenas manufaturas.
Como foi o ponta-pé inicial da industrialização no Brasil:
Ocorre que o Império (D. Pedro II) caiu porque em São Paulo já vinha se formando uma pequena Classe Burguesa que tentava montar manufaturas para concorrer com os produtos importados. Um bom exemplo é Francesco Matarazzo, de origem italiana. Antes dele, o Barão de Mauá, já vinha construindo estradas de ferro e algumas indústrias, apesar de ter sofrido todo tipo de reação dos Aristocratas, que preferiam manter a submissão econômica do Brasil.
A substituição de importações surgiu de uma necessidade premente:
Nessa sequência de fatores, ocorreram algumas crises internacionais, que praticamente fecharam os mercados fornecedores de produtos para a Aristocracia brasileira, como a Guerra da Secessão nos EUA, a grande depressão europeia de 1873-1896, a Primeira Grande Guerra, a quebra da bolsa de Nova York e a Segunda Grande Guerra. Nessas condições, de fechamento das importações, os industriais brasileiros viram oportunidades de investimento, produção e venda de produtos.
Qual é a participação da Esquerda nesses acontecimentos?
A participação da Esquerda, desde o Império (ainda que de forma intuitiva, no início e consciente a partir dos anos 1920), foi decisiva, para que a industrialização e o Capitalismo brasileiro deslanchassem. Como dito acima, sem mercado consumidor, não existe Capitalismo. O Capitalismo precisa de trabalhadores assalariados e a Esquerda lutou para que as pessoas fossem formalmente contratadas e assalariadas. A Esquerda lutou pela Consolidação das Leis Trabalhistas, a Esquerda lutou pela igualdade das mulheres, incluindo direito de voto e contratação com salários dignos. A Esquerda lutou pela jornada limitada a 8 (oito) horas diárias, com descanso semanal remunerado. A Esquerda lutou pelas férias remuneradas e pelo 13º Salário.
São milhares de conquistas da Esquerda, que serviram para beneficiar o Capitalismo, haja vista que cada conquista aumentou o poder de compra da Classe Trabalhadora e portanto a demanda de produtos. Como eu disse acima, sem demanda não existe Capitalismo.
Atualmente, a Esquerda está lutando pela folga no sábado, isto é, pelo fim da escala 6 x 1. Os trabalhadores vão ganhar qualidade de vida e o Capitalismo vai ganhar muito mais, pois as empresas precisarão contratar mais gente e pagar mais salários. Isto é mais demanda pelos produtos colocados à venda e consequentemente mais aumento da produção.
O próximo objetivo da Esquerda é chegarmos ao salário-mínimo da Europa, de 1.700,00 Euros, ou seja, quase 10.000,00 reais. A Europa, com esse salário-mínimo, está quebrada? Não!
A Esquerda faz avançar e a Elite do Atraso atravanca:
Em outras palavras, a Elite do Atraso (expressão criada pelo Sociólogo Jessé Souza) é tão mesquinha que, se dependesse dela, nós ainda estaríamos exportando commodities e não teríamos nenhum mercado interno. Não teríamos uma única indústria funcionando. Estou falando das indústrias nacionais, aquelas que o Eduardo Bolsonaro defendeu publicamente que fechem as portas e se desloquem para os Estados Unidos.
15/07/2026 12:16
Excelente sinopse sobre a importância da esquerda no dinamismo do capitalismo brasileiro via aumento da demanda efetiva. E o que vale para o Brasil vale pro resto do mundo: sem o Welfare State após a 2ª Guerra o capitalismo teria sucumbido.
15/07/2026 14:35
Estamos de acordo.