Antes de ler esta matéria, recomendo que você veja este vídeo do Dr. Gustavo Lenci Marques: Novo estudo de 2026? A Ivermectina poderia ter evitado mortes?
Quando charlatanismo e medicina eram a mesma coisa
Até o início do século XX era impossível separar a medicina legítima da charlatanice. Até então, cada médico tratava com o que lhe vinha à cabeça. Com exceções, não se distinguiam de curandeiros, xamãs e pajés. Aliás, o xamanismo algumas vezes curava, e raramente fazia mal.
O progresso foi lento. Todos os avanços, introduzidos pelos poucos médicos verdadeiros que havia, encontraram resistência. Os exemplos abundam.
Tentaram desacreditar Pasteur com suas provas da existência de micro-organismos. As “autoridades” da sua época tentaram desmoralizá-lo dizendo que os germes tinham geração espontânea (abiogênese).
Os próprios colegas médicos levaram Ignaz Semmelweis à loucura e à morte, quando ele fez uma proposta simples para evitar a febre puerperal que matava muitas parturientes no hospital: lavar as mãos! Seus colegas médicos se recusaram a lavar as mãos e o condenaram.
Quando John Snow demonstrou que a cólera era transmitida pela água contaminada de um poço no bairro do Soho, em Londres, todos se voltaram contra ele.
Não foi diferente com Edward Jenner. Quando ele descobriu a prevenção da varíola pela vacina, ele foi atacado de todas as formas (veja uma referência aqui).
As descobertas destes pioneiros, baseadas em métodos científicos rigorosos, eram desprezadas pelo povo e pelas “autoridades”. O que é mais assustador: seus autores foram desprezados e perseguidos por colegas médicos. Aqueles que deveriam usar as descobertas para salvar vidas, preferiam continuar matando seus pacientes com seus métodos inúteis e perigosos.
Só no primeiro quarto do século XIX a medicina começou a abandonar de forma mais sistemática o curandeirismo e adotar a ciência como método de comprovação de eficácia dos tratamentos. Um processo lento. Passado um século, o processo ainda não se completou. A autoridade que muitos médicos se dão, extrapola em muito o que a ciência lhes autoriza.
Neste contexto, a defesa do uso da cloroquina e da ivermectina como tratamentos para a COVID-19 mostra que muitos médicos não aprenderam nada com o passado, tiveram péssima formação acadêmica, e não se preocupam com a saúde dos seus clientes e da população.
Medicina baseada em evidências
Em 1972, o médico Archie Cochrane, no livro Effectiveness and Efficiency: Random Reflections on Health Services (Efetividade e Eficiência: Reflexões Variadas sobre os Serviços de Saúde), mostrou que os médicos ainda praticavam medicina sem observar os resultados reais de seus tratamentos. Eles não observavam a eficácia dos seus tratamentos, não comparavam os benefícios e malefícios que diferentes medicamentos e procedimentos traziam para seus pacientes.
Para afastar da medicina este comportamento de curandeiros e charlatões, sua proposta proposta era simples: os órgãos de saúde devem compilar, sistematizar e analisar estudos e práticas de tratamentos e procedimentos realizados. Aqueles que derem resultados comprovadamente positivos seriam adotados e disseminados; os demais, seriam proibidos e abandonados.
Vinte anos depois (1992) o médico canadense Gordon Guyatt criou um programa de residência médica baseado em avaliação crítica de todos os procedimentos realizados no hospital. Foi aí que surgiu o termo medicina baseada em evidência, cuja semente estava na obra de Archie Cochrane.
Em 1996, David Sackett deu a definição clássica do que é a medicina baseada em evidência: o uso consciente, explícito e criterioso da melhor evidência disponível na tomada de decisões sobre o cuidado de pacientes individuais.
Esta definição, como se vê, exclui as crenças pessoais do médico. Ele não deve fazer o que ele acha; ele deve fazer o que as evidências mostram que deve ser feito.
É aí que começam os problemas com os médicos, os políticos e os leigos que acham que cloroquina e ivermectina são úteis na prevenção e tratamento da COVID. Definitivamente, não são! E pode-se dizer que não são, porque as evidências mostram isto com clareza, não porque Fulano ou Sicrano dizem que funciona ou não funciona.
Médicos que pregam o uso da cloroquina e da ivermectiva contra a COVID-19 não estão indo contra opiniões divergentes, eles estão indo contra conhecimentos solidamente estabelidos por critérios técnicos bem conhecidos e reconhecidos.
Quando se trata de charlatanismo, quem tem culpa no cartório?
O leigo não é obrigado a entender de medicina ou de pesquisas científicas. Não é obrigado a distinguir um procedimento médico baseado em evidências de um procedimento médico baseado em pajelança, charlatanismo ou operação caça-níquel. Portanto, tem que ser perdoado, pois não sabe o que faz. Nem teria que saber.
Na questão da ivermectiva e cloroquina, os leigos são vítimas.
O médico, por outro lado, é obrigado a fazer muitas distinções.
- Ele precisa saber o que é o tratamento indicado para cada caso, com base nas melhores evidências;
- Ele precisa saber quando é cabível um tratamento paliativo, embora saiba que não está curando o paciente;
- Ele precisa saber quando deve aplicar um tratamento compassivo, porque as opções anteriores não se aplicam;
- Finalmente, ele precisa saber quando deve aplicar um tratamento de desespero, porque todas as outras alternativas se esgotaram, ou não são aplicáveis.
O político é o maior culpado de todos, pois faz política eleitoreira às custas da saúde do povo e usa sua influência para induzir seus eleitores a erro. Como aconteceu antes, e voltou a acontecer agora, com a divulgação dos supostos méritos da ivermectina e da cloroquina na prevenção e tratamento da COVID-19.
Estes políticos não são culpados por serem ignorantes; são culpados por não terem escrúpulos nem respeito pela população.
Exemplos
A tarefa do médico competente e dedicado não é simples. Ela começa com as dificuldades de fazer um diagnóstico correto e instituir um tratamento eficaz. Nem sempre é fácil fazer isto, mesmo para o mais experiente dos profissionais. Há doenças fugidias e enganosas que desafiam a argúcia de qualquer um. E há tratamentos que, mesmo eficazes para a maioria, são desastrosos para alguns.
Medicina é uma arte refinada, que exige duas habilidades: de um lado, ver, ouvir e entender o paciente; do outro lado, conhecer e aplicar corretamente o arsenal que as ciências colocam à disposição do profissional.
Melhor tratamento — Seja como for, superada a fase do diagnóstico, a primeira opção do médico é instituir o tratamento que tenha as melhores evidências favoráveis, e as menores evidências desfavoráveis. Este é o mundo ideal, e espera-se que tudo corra bem. Pelo menos, na maioria das vezes. É isto que determina a medicina baseada em evidências.
Paliativos comuns — Quando o diagnóstico leva a uma doença para a qual não existe tratamento específico, o médico, com os cuidados de praxe, adota os tratamentos sintomáticos e paliativos que puder. Essencialmente, é o que acontece no caso da COVID-19. Não existe tratamento específico. As intervenções se destinam a paliar os sintomas, como melhorar a oxigenação, baixar a febre, tirar a dor, evitar complicações. O resto, é o corpo do paciente e o tempo que farão.
Paliativos terminais — Mas, o prognóstico pode ser sombrio. Como um câncer que já se espalhou para o corpo inteiro e não é mais passível de tratamento ou cirurgia. Aí é hora de decidir com o paciente e talvez com a família, quais medidas tomar. Pode ser, por exemplo, a alta do paciente, com medicamentos muito fortes contra a dor, para que não tenha sofrimento evitável e viva os últimos dias junto a seus familiares, e sem sofrimento desnecessário.
Tratamento compassivo — Há casos em que está surgindo uma esperança no horizonte. Embora a doença não tenha nenhum tratamento aprovado por evidências robustas, há indícios de uma droga nova que pode fazer efeito positivo. Em casos assim, mediante protocolos e autorizações específicas, o médico pode instituir um tratamento experimental, por compassividade. Ou seja, não há certeza de que o medicamento funcione. Não há nem mesmo certeza de não agravará a situação. Mas, na falta de alternativas, os indícios são usados como esperança.
Um exemplo atual deste uso é a polilaminina. Estudos conduzidos até o momento dão esperança de que este medicamento possa ser útil na recuperação de pacientes que sofreram trauma na medula espinhal. No momento, não há provas robustas de que ele realmente funcione. Mas, como secção da medula ainda não tem nenhum tratamento eficaz, a ANVISA costuma autorizar seu uso como última tentativa de restaurar a medula, e talvez salvar a vida do paciente. É uma esperança.
Com o tempo, este uso compassivo pode ser tornar um tratamento reconhecido e aceito.
Tratamento de desespero — Quando o médico se empenha em salvar um paciente, mas a vida lhe escapa por entre os dedos; quando nenhuma evidência ajuda, quando não há medicamentos novos à vista, pode ter chegado a hora do tratamento de desespero. O médico faz o que não está em nenhum manual, em nenhuma pesquisa, em nenhuma recomendação. Ele vai além do sabido e do previsível.
Surgiu daí a tentativa de usar a Ivermectina e a cloroquina como tratamento de desespero para a COVID-19. Especialmente nas fases iniciais da epidemia, quando os médicos do mundo inteiro estavam perdidos e sem pesquisas ou históricos para os orientar. Não havia evidências. No desespero, valia qualquer coisa.
Até aí, se compreende. Os médicos trabalhavam além das fronteiras das práticas clínicas reconhecidas.
No entanto, não demorou para que surgissem evidências de que Ivermectina e cloroquina não funcionam na COVID-19. Não previnem nem tratam. Ao contrário, podem agravar.
Os médicos que se submetem às evidências objetivas e não a suas fantasias e ilusões deixaram de lado o que havia se provado inútil e passaram a adotar outros procedimentos e medicamentos com melhores promessas. Por exemplo, a dexametasona — embora também de resultados modestos.
Ivermectina, cloroquina, Azitromicina, nenhum destes produtos alterou para melhor o destino dos pacientes. Não os curou, não lhes deu sobrevida, não os livrou do respiradouro, não lhes diminuiu as sequelas. Mostraram-se inúteis e até perigosos.
Desesperos bem-sucedidos
Para fins de mera exemplificação, trago dois casos de tratamento de despero que funcionaram.
Este foi o caso do cirurgião brasileiro Dr. Francisco Gregori Jr. Em 1997, no Hospital Evangélico de Londrina, ele tentava suturar o coração da Dona Joana Messas Woitas, que havia sofrido uma ruptura do ventrículo. Cada vez que ele costurava, um novo rompimento. Depois de uma hora e meia tentando, sem sucesso, ele pediu que alguém corresse num mercado próximo e comprasse um tubo de cola Superbonder, Com a cola, ele conseguiu fechar o ventrículo e estancar o sangramento.
Dona Joana viveu mais quatorze anos após a cirurgia. Foi salva por um procedimento desesperado.
Durante a segunda guerra, em ilhas do Pacífico, os médicos americanos não tinham soro fisiológico. Muitas vezes usavam água de coco verde para reidratar soldados em situação de desespero. Este procedimento lhes dava horas extras de vida, até que pudessem ser transportados para hospitais, ou pudessem receber o soro fisiológico.
Contudo, creio não haver dúvida de que tudo que o paciente precisa, e tudo que o médico competente e honesto quer, é dar ao paciente o tratamento padrão, recomendado pelas melhores evidências disponíveis.
Ivermectina e Cloroquina são inúteis e perigosos na COVID-19
Passados cinco anos da crise da COVID-19, duas coisas podem ser garantidas com absoluta certeza:
- As vacinas contra COVID-19 funcionam
- Cloroquina e Ivermectina não funcionam nem na prevenção nem no tratamento da COVID-19
Vale repetir: nestas alturas, a certeza é absoluta. Todos os estudos realizados com rigor científico mostram estes dois fatos: a) vacinas funcionam na prevenção ou mitigação da COVID; b) cloroquina e ivermectina não têm nenhum efeito positivo na prevenção ou tratamento da COVID.
A eficácia das vacinas
Em agosto de 2020 a Rússia iniciou a vacinação em massa contra a COVID, antes mesmo de os testes de sua vacina (Sputnik V) terem sido finalizados. Mas, o primeiro país a começar a vacinação em massa após a conclusão dos testes foi o Reino Unido, em 8 de dezembro. Apenas seis dias depois, em 12 de dezembro, os Estados Unidos começaram a vacinação em massa.
No entanto, é sabido que a China já estava usando a vacina Coronavac em grupos restritos desde julho de 2020. A liberação para uso geral veio mais tarde.
No Brasil, a vacinação em massa começou no dia 17 de janeiro de 2021.

Sete meses após o início da vacinação, o Ministério da Saúde publicou o gráfico acima. A imagem revela o efeito positivo da vacinação. Conforme a aplicação de doses avançou, a mortalidade caiu. Mais doses aplicadas, menos pessoas doentes e mortas. A vacina agia como esperado.
Este padrão se repetiu em todos os países, com todas as vacinas usadas.
Gráficos semelhantes mostram outros números convincentes. Após o início da vacinação, o número de vacinados que morreram continuam a cair. Paralelamente, o número de mortes entre não vacinados permaneceu alta. Os não vacinados só se beneficiaram quando o número de vacinados criou o efeito rebanho, o que diminuiu a taxa de transmissão da doença.
Mesmo hoje, quando a COVID-19 está controlada, os números continuam comprovando: a doença ataca mais não vacinados do que vacinados, e morrem mais não vacinados do que vacinados.
Estudos recentes
Os estudos dos efeitos das vacinas continuam até o presente. Todos confirmam a eficácia da vacina. Nenhum confirma qualquer utilidade da ivermectina ou da cloroquina.
Após a campanha de vacinação contra COVID-19 no Canadá, a revista Eurosurveillance publicou um estudo dos resultados. A redução do adoecimento foi de 48%. Os mais beneficiados foram as pessoas acima de 65%, entre os quais a redução foi de 53%.
Todos os estudos, em todos os países, mostram resultados semelhantes: vacinas funcionam e protegem vidas. Ivermectina, cloroquina e Azitromicina não ajudam e muitas vezes pioram a situação do paciente.
Vacinas protegem o coração
Outras mentiras que circulam na Internet dizem que a vacinação aumentou a mortalidade de atletas jovens, a ocorrência de embolia ou doenças do coração.
São todos boatos, exceto os carsos de miocardite, que são verdadeiros, mas parciais e distorcidos
As vacinas não aumentam a mortalidade por doenças cardíacas. Ao contrário, elas diminuem a mortalidade. Isto se deve, provavelmente, à diminuição dos efeitos negativos da inflamação sistêmica ou da inflamação do próprio coração. Mas, o que indicam os estudos?
Aumento da miocardite com a COVID-19
Historicamente, atletas estão mais sujeitos à miocardite do que a população em geral. Com a chegada da COVID-19, houve um pequeno, mas sensível aumento da ocorrência de miocardite. Este aumento atingiu tanto atletas quanto a população em geral. Esta é uma consequência direta da ação do vírus, que pode provocar inflamação generalizada e descontrolada.
Diminuição da miocardite com a vacina
O que os estudos mostram é que a vacina diminuiu a ocorrência de miocardite tanto na população em geral, quanto em atletas. Este é o resultado que se esperaria, pois a vacina diminui a incidência da doença, e quando ela acontece, costuma ser mais branda.
Portanto, o efeito protetor da vacina era ser esperado. E é o que os estudos confirmam. Durante a crise da COVID-19 a incidência de miocardite aumentou entre atletas não vacinados, mas diminuiu entre atletas vacinados. Um estudo relacionado com a isto pode ser lido aqui e aqui.
Portanto, é falsa a notícia de que a vacina da COVID-19 aumenta a incidência de miocardite, seja entre atletas, seja na população em geral.
Tem inclinação para a ciência e quer a verdade?
Se voc
ê tem inclinação científica para apurar a verdade, e quer saber a verdade em detalhes sobre a ineficácia e os perigos da Ivermectina, cloroquina e Azitromicina no tratamento da COVID-19, vale a pena ler o artigo ao lado. É só clicar na imagem para ir diretamente ao resultado dos estados
.
O grande farsante
A história da aplicação da ivermectina, cloroquina e azitromicina na prevenção e tratamento da COVID-19 está recheada de bufões, palhaços, mentirosos e estelionatários. Esta corja não está composta apenas por políticos desonestos, mas também por médicos que se desviaram do seu compromisso de cuidar da saúde dos seus pacientes, e adotaram o caminho da fama barata pelo conflito e do faturamento pela venda de ilusões.
Nesta linha de farsantes e aproveitadores, talvez o mais famoso seja o médico cassado Pierre Kory. Neste vídeo, Professor Dave Farina mostra como ele foi o principal responsável pela fraude científica que levou a Ivermectina aos palcos durante a crise da COVID-19.
Conclusão
Ivermectina e cloroquina são medicamentos efetivos e seguros quando usados para as finalidades corretas. No entanto, são inúteis e até perigosos quanto usados no tratamento da COVID-19.
As vacinas contra COVID-19 são seguras e efetivas. Todos devem tomá-la, especialmente os mais idosos e os que têm outras doenças que podem se agravar com o SARS-COV-2.