Há mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas — Disraeli
Muitos brasileiros não se preocupam em ler artigos jornais. É ínfimo o número daqueles que examinam gráficos e procuram entendê-los. Este número chega a quase zero quando o leitor é viciado em redes sociais. Este, geralmente só vê o título e já sai propagando. Estas pessoas são massa de manobra de fácil acesso e baixo custo para políticos desonestos. É o caso, por exemplo, do candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, que divulgou o gráfico em sua rede social.
Observando o rodapé, constata-se que o candidato até citou suas supostas fontes: Fecomércio SP e UOL. Ele teve este cuidado, porque sabe de duas coisas:
- O leitor não irá conferir
- Sua militância divulgará a mentira de forma intensa.
Mas, se os 15 milhões de seguidores do candidato se dessem ao trabalho de ler, e não apenas papagaiar o que está escrito, teriam sabido que a UOL já desmentiu esta mentira e apresentou também os dados da Fecomércio.
Para quem quiser ler na fonte, é só clicar qui.
Para os que têm preguiça de conferir, mas querem saber de que se trata o golpe do gráfico, eu explico de forma resumida.
Falência versus recuperação judicial
A primeira desonestidade do gráfico é trocar recuperação judicial por falência. São duas coisas diferentes.
A falência ocorre quando a empresa perde totalmente sua capacidade de sobrevivência e some do mercado.
A recuperação judicial ocorre quando a empresa enfrenta dificuldades de liquidez, mas tem condições de se recuperar e continuar operando. No Brasil, considerando a média de todos os setores, em torno de 70% das empresas em recuperação judicial têm sucesso, e continuam operando.
O gráfico acima chama de falência o que é, de fato, recuperação judicial. É uma mentira relevante. Mas há outra mentira igualmente grave. Talvez até mais grave: a confusão premeditada entre crescimento e estoque.
Espiga versus jacá
Imagine que o produtor de milho, aquele das antigas, esteja comparando quantas espigas de milho ele colhe por hora. Vamos dizer que a média seja de 1000, mas o número real varia de 900 a 1100. Ele trabalha 8 horas na colheira, e conta: 950, 1000, 990, 1049, 1050, 932, 1081, 999 espigas a cada hora. Isto totaliza 8051 espigas. Aí ele faz o seguinte gráfico:

O erro (intencional, no caso do candidato Flávio Bolsonaro), foi trocar a produção de 999 espigas da última hora de trabalho pelo total colhido nas oito horas. Onde deveria aparecer 999, apareceu 8051. O efeito visual é enorme, e a mentira é gigante.
Ou seja, uma coisa é contar quantas espigas são colhidas por hora; outra coisa é contar quantas espigas há no jacá. Um se refere ao estoque, outro, à entrada e à saída.
Verdade versus mentira
Como tem acontece com demasiada frequência nestas notícias mentirosas, a verdade é o contrário do que está sendo divulgado pelo candidato Flávio Bolsonaro: os pedidos de falência diminuíram de 2023 para cá. É o que mostra o gráfico abaixo, da mesma fonte usada pelos mentirosos:

Em resumo, as falências diminuíram, os pedidos de recuperação judicial aumentaram, e o sucesso tem sido grande. Sinal de que a economia vem melhorando nos últimos anos. (Estas informações podem ser conferidas em várias fontes, mas há um resumo aqui. Outros desmentidos podem ser lidos aqui).
A economia vem se recuperando nos últimos anos
Os números desmentem os esforços do candidato Flávio Bolsonaro para atacar a economia. Além dos números acima, outros mostram como a melhoria é consistente. A queda no desemprego é o mais importante do ponto de vista social. Mas, há números muito concretos que não podem ser atribuídos a interpretação. São números sólidos, que podem ser conferidos em várias fontes, como Receita Federal, Juntas Comerciais, receitas estaduais e municipais.
Por exemplo:
Falências em Queda: Em 2025, o Brasil registrou 686 processos de falência (referentes a 698 CNPJs). Este é o número mais baixo desde 2012. Ou seja, as falências estão numa baixa histórica. Situação bem diferente do que a mentira divulgada pelo candidato Flávio Bolsonaro.
Abertura versus fechamento de empresas. Segundo os registros da Receita Federal, em 2025 o Brasil teve 5,18 milhões de novas empresas abertas, contra 2,9 milhões de encerramento. Portanto, um saldo positivo de 2,28 milhões de empresas novas. Isto, só em 2025.
As pernas curtas das mentiras
As mentiras têm pernas curtas, mas andam ligeiro porque há muitos escroques interessados em divulgá-las. O mais importante, porém, é que dizer mentiras não exige pesquisa, experiência, discernimento. Mente-se (como mentiu o candidato Flávio Bolsonaro), e fica por isto mesmo.
Já desmanchar a mentira custa tempo para buscar as informações corretas, analisá-las e organizá-las de forma que possam ser facilmente digeridas. Também por isto as mentiras, embora tenham pernas curtas, se espalham de forma muito mais rápida do que a verdade. Especialmente nas redes sociais, onde as fake news são a praxe, não a exceção.
Neste cenário, cabe às pessoas honestas e preocupadas com a verdade, não confiar cegamente no que lê, e não repassar o que não tenha conferido pessoalmente.
Como disse Disraeli, há mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas. Com sua publicação, o candidato Flávio Bolsonaro apelou para as estatísticas. Ou seja, foi além da simples mentira e da mentira deslavada.