Alerta

Déficit fiscal e dívida pública: vilões ou aliados do desenvolvimento do Brasil?

O Brasil enfrenta o terrorismo dos rentistas e banqueiros que brandem a dívida pública como um problema que ela não é.

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 02/09/2026 12:45
Déficit fiscal e dívida pública: vilões ou aliados do desenvolvimento do Brasil?
Os Estados Unidos construiram sua riqueza e poder com déficits e dívida pública. O Japão também. Por que o Brasil não pode se beneficiar das lições dadas por estes países?

  • A dívida pública brasileira atual é de 82,5% do PIB — menor que os 86,94% registrados em 2020 (Governo Bolsonaro).

  • A dívida externa do Brasil é de apenas US$ 67 bilhões. As reservas brasileiras somam US$ 397 bilhões — ou seja, temos 6 vezes o valor devido.

  • Nos EUA, a dívida pública ultrapassa 125% do PIB; no Japão, chega a 256% — e nenhum desses países quebrou por causa disso.

  • Dívida interna (em reais, cono a nossa) nunca quebrou país algum na história. Quem quebra é dívida externa mal administrada. O problema não é ter dívida, mas para que ela é usada e como é gerida.

A prova do pudim

Os ingleses usam a expressão “the proof of the pudding is in the eating”. Embora a tradução literal seja "a prova do pudim está na degustação", seu sentido é nos alertar que a verdade sobre qualquer coisa só pode ser avaliada pelos resultados práticos, não por especulações de ar condicionado.

A Argentina tem dívida pública de péssima qualidade (mas que se tornou inevitável). O Brasil já teve dívida pública de péssima qualidade. No entanto, a dívida pública atual é de boa qualidade e tem sido muito benéfica para a economia e para a sociedade.


Você verá nesta matéria:

  1. A maior dívida pública do Brasil, em relação ao PIB, aconteceu no Governo Bolsonaro, em 2020, quando chegou a 86,94% do PIB. A dívida atual é de 82,5% do PIB;
  2. O Brasil não quebrou em 2020, e não vai quebrar agora, porque dívida pública interna nunca quebrou, e não quebra países;
  3. A dívida pública externa brasileira é ínfima, e o Brasil tem reservas internacionais que equivalem a seis vezes sua dívida. Portanto, não preocupa;
  4. A dívida líquida do Brasil, em relação ao PIB, é menor do que a de quase todos os países desenvolvidos, como os Estados Unidos (125,8%), diversos países da Zona do Euro (mais de 100%) e Japão (quase 300%). 
  5. É bom aprender com a história:

    No século XX, os Estados Unidos tiveram 30 anos de superávit e 70 anos de déficit;
    No século XXI, até 2026, os Estados Unidos tiveram 25 anos de déficit fiscal, e somente um ano de superávit.
    — Em 250 anos de história, os Estados Unidos só tiveram um ano sem dívida pública (1936). A consequência foi uma grande recessão em 1837, que obrigou o país a se endividar novamente, sem numa mais parar

  6. O déficit fiscal brasileiro tem uma boa causa e está sendo usado para alavancar a economia e melhorar a saúde e a educação da população mais necessitada. Por isto mesmo, é uma dívida de boa qualidade.

O que é déficit fiscal?

Déficit fiscal é a diferença negativa entre o que o governo arrecada com tributos e o que ele gasta. Ou seja, se o governo arrecada R$ 100,00 com tributos e gasta R$ 110,00 com obras, serviços e folha de pagamento, ele tem um déficit fiscal de R$ 10,00.

É como uma família que, num mês, tem despesas maiores que a renda por uma viagem, uma reforma ou uma emergência. Nos meses seguintes, ela se ajusta.

O que é dívida pública?

Dívida pública é o total acumulado que o governo deve a credores  —  assim como uma família pode dever financiamento da casa, do carro ou ter dívidas no cartão de crédito.

Principais tipos de dívidas públicas

Tipo O que é Exemplo de família
Contratual Empréstimo com banco ou agência (BID, Banco Mundial) Financiamento da casa própria
Mobiliária Títulos públicos vendidos no mercado (Tesouro Direto) Cheque pré-datada, promissória
Implícita Obrigações futuras previstas em lei (previdência, benefícios) Filho que nasce – gera despesas futuras
Contingente Dívida que pode ou não ocorrer (ações judiciais contra o governo) Ação judicial do vizinho

Importante: nem toda dívida nasce de déficit fiscal. Muita dívida é fruto de escolhas políticas conscientes como os investimentos de Juscelino Kubitschek, que geraram dívida, mas também ampliaram a indústria em 80%,  criaram Brasília, ou aumentaram em 600% a produção de máquinas e equipamentos.

Ou a ampliação de programas como o Bolsa Escola, do Governo Lula, que levou milhões de crianças para as escolas e acabou com a miséria e a fome de outros milhões, e com a distribuição de renda, aqueceu o comércio de gêneros de primeira necessidade.

O Tesouro Direto, da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), permite que qualquer brasileiro empreste dinheiro para o governo. Na nova modalidade chamada Tesouro Reserva, os empréstimos começam de R$ 1,00.

Dívida Interna x externa uma grande diferença!

A dívida brasileira é majoritariamente interna

  • O governo deve em reais a brasileiros (pessoas, empresas, bancos);
  • Não há risco de calote o governo pode rolar a dívida (pagar com novos títulos);
  • O próprio crescimento do PIB proporcionado pela dívida faz a dívida sumir;
  • Nunca, na história, um país quebrou por dívida interna.

Dívida externa (a perigosa)

  • O governo deve em moeda estrangeira (geralmente dólar) a credores internacionais.
  • Para pagar, precisa gerar dólares – via exportações ou reservas.
  • Se o dólar sobe ou a economia global aperta, o país pode entrar em crise.

O Brasil, hoje, está muito bem nesse aspecto:

  • Dívida externa: US$ 67 bilhões.
  • Reservas internacionais: US$ 397 bilhões
  • Temos 6 vezes mais reservas do que dívida externa. Muita folga!

Compare com a Argentina:

  • Dívida externa: US$ 321,8 bilhões
  • Reservas: US$ 36,6 bilhões
  • Deve 8,8 vezes mais do que tem. (Muito aperto!)

Dever em moeda estrangeira pode virar um pesadelo. No caso do Brasil, a dívida é em reais. A moeda está sob sua soberania. Portanto, não há risco de ameaça internacional. As procelas que atingem o dólar não afeta a estabilidade da dívida.

Este é um dos muitos fatores que igualam a dívida brasileira à do Japão, e a torna muito diferente da dívida argentina.


Os exemplos do mundo

A análise das dívidas dos países desenvolvidos mostra que não existe associação necessária entre dívida alta e baixo desenvolvimento econômico e social. O contrário é verdade: todos os países desenvolvidos econômica e socialmente, estão associados a dívidas elevadas.

Estados Unidos

  • Dívida pública: 125,8% do PIB.
  • Em 250 anos de história, só tiveram um único ano sem dívida (1835) – e logo em seguida veio uma grave recessão (1837).
  • No século XXI, tiveram 25 anos de déficit e apenas um ano de superávit.

Zona do Euro

  • Média da dívida de toda a zona do Euro: 80% do PIB (praticamente igual à do Brasil).
  • Grécia, Itália, França, Bélgica e Espanha têm mais de 100% – e não há pânico por lá.
  • Não existe nenhum país europeu sem dívida

Japão

  • Dívida: 256% do PIB.
  • Vive em déficit há mais de três décadas
  • Mesmo assim, o Japão tem IDH altíssimo (0,925), alta longevidade e excelente qualidade de vida.

China

Embora seja um sistema econômico misto, também tem dívida pública crescente, e atualmente superior a 100% do PIB. Nem  nem por isso deixa de crescer. Ao contrário, foi a economia que mais cresceu nos últimos 30 anos ou mais.


Conclusão

Países desenvolvidos convivem com dívidas muito maiores que a nossa. O alarmismo brasileiro não encontra respaldo na experiência internacional.


Dívida boa × dívida ruim

Não existe resposta simples para “dívida é boa ou ruim?”. A resposta é: depende do uso.

Dívida boa (gera retorno)

  • Construção de portos, ferrovias, rodovias, saneamento – gera emprego, aumenta PIB e melhora qualidade de vida.
  • Bolsa Família – aquece o comércio local e reduz desigualdade.
  • Financiamento da agricultura familiar – melhora a alimentação e fixa o homem no campo.
  • Educação – multiplica benefícios por gerações.

Dívida ruim (sem retorno)

    Gastos correntes sem planejamento, corrupção, ou obras superfaturadas sem impacto social.

Exemplo familiar:

Financiar a casa própria ou o consultório do filho recém-formado é uma boa dívida. Usar o cartão de crédito para comprar supérfluos sem planejamento é dívida ruim.

E a dívida brasileira, como está?

  • Em 2020 (Governo Bolsonaro), atingiu o pico recente: 86,94% do PIB.
  • Atualmente (Governo Lula): 82,5% do PIB – ou seja, menor.
  • O Brasil não quebrou em 2020 e não vai quebrar agora – justamente porque a maior parte da dívida é interna e em reais.

O governo vem rolando a dívida – prática comum em todos os países – e não emitindo moeda descontroladamente para pagá-la, o que evita a pressão inflacionária.

A gritaria é artificial e maldosa

O discurso de que “a dívida pública vai quebrar o Brasil” é alarmista e desinformado quando:

  • Ignora que temos reservas seis vezes maiores que nossa dívida externa.
  • Desconsidera que países muito mais endividados (EUA, Japão, França) convivem bem com suas dívidas.
  • Confunde dívida interna (segura) com externa (arriscada).
  • Não avalia se a dívida está sendo usada para investimentos produtivos ou para gastos estéreis.

A verdadeira pergunta não é se “devemos ter dívida”, mas sim, se “estamos usando essa dívida para construir um país melhor”.

Como a resposta é sim – como no caso de investimentos em infraestrutura, educação e proteção social – então a dívida é uma ferramenta, não uma ameaça.


A prova do pudim está na degustação

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Os resultados práticos mostram que o Brasil tem condições de administrar sua dívida sem sustos. Isto não impede que haja um debate honesto e bem-informado sobre os níveis adequados da dívida, e que tipo de investimento ou dispêndio pode justificar seu crescimento.

No entanto, este debate civilizado, informado e bem-intencionado é muito diferente do pânico que a Faria Lima e seus associados estão vendendo à população brasileira. A dívida não é um bicho-papão. Ela é um instrumento de gestão já usado com muito sucesso em dezenas de países, ao longo de séculos, e que atualmente está sendo usada com propriedade e responsabilidade no Brasil.

Os resultados práticos são a prova do pudim: crescimento do PIB, resgate social, aumento do IDH.


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