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Saci Pererê ou Halloween?

Políticos querem acabar com o halloween. Uns por motivos políticos; outros, por motivos religiosos

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 17/11/2025 07:10
Saci Pererê ou Halloween?
Políticos querem controlar até mesmo os folguedos populares. Para alguns, o halloween é um perigo. Enquanto isto, roubar os cofres públicos não parece preocupar.

Entre as lendas brasileiras mais conhecidas está o Saci Pererê. Embora originária dos nativos do Brasil, a personagem foi mudada pela cultura europeia e africana.

Saci original

O Saci dos povos tupis e guaranis era um curumim (criança), de cabelos vermelhos. Muito travesso, vivia na floresta, conhecia as plantas e montava em animais. Não gostava de caçadores e pregava peças em viajantes. Era um protetor das florestas. Seu meio de transporte favorito era o redemoinho. Criava um, e logo se transportava de um lugar para outro.

Saci dos escravizados

Os escravizados que chegaram da África adotaram o Saci como parte de sua cultura. Foi assim que ele ganhou a pele negra e perdeu uma perna. Segundo algumas versões, contadas em volta das fogueiras que aqueciam as noites frias dos gaúchos, a perna foi perdida numa luta de capoeira.

Saci dos Europeus

Os europeus, por sua vez, deram ao Saci um gorro vermelho e um cachimbo. O gorro era o barrete, muito usado na Europa. A cor vermelha recuperava, de certa forma, a cor original do cabelo do Saci. E, cachimbar, também um hábito nativo, naquelas alturas, já havia se difundido tanto entre escravizados quanto entre europeus.

A figura do Saci

 Assim, sob a influência destas três culturas, o Saci tomou sua figura atual: menino travesso, de uma perna só, pele negra, gorro vermelho, cachimbo na boca. Mas, continua com suas artes e manhas de sempre. Quando alguém se distrai na floresta, ele vai logo escondendo os pertences que encontra.

Agora, você já sabe: se estiver no mato, e algo seu desaparecer, foi o Saci que passou por ali, pegou e escondeu no mato. E, se passar um remoinho, já sabe: é o Saci chegando ou indo embora.

Halloween

O halloween é uma festa celta que surgiu há mais ou menos 2500 anos, onde hoje estão a Inglaterra, Irlanda e seus vizinhos. Não se chamava halloween, mas samhain. Era uma festa para agradecer pelas colheitas que haviam terminado, e pedir proteção contra os perigos do longo e frio inverno que se aproximava.

Mais tarde, os cristãos mudaram o nome da festa para halloween, expressão inglesa que significa véspera do dia de todos os santos (All Hallows Eve). Isto, porque a festa acontece no dia 31 de outubro, e o Dia de Todos os Santos acontece no dia 1º de novembro.

Os irlandeses são cristãos fervorosos. Quando migraram aos milhares para os Estados Unidos, eles levaram a festa do halloween. A celebração foi logo adotada pelos americanos, formados principalmente por protestantes. De lá, ela se espalhou pelo mundo.

Por motivos comerciais — que fica para ser visto em outra oportunidade — o halloween foi adotado no Brasil na primeira metade do século XX. O nome, porém, foi mudado para Dia das Bruxas — que nada tem a ver com nome original.

O combate ao halloween

Faz algumas décadas que políticos patriotas, geralmente mais à esquerda, têm defendido a criação do Dia do Saci. A data proposta coincide com o dia do halloween. A ideia destes nacionalistas é combater o halloween pela substituição. Em vez de o brasileiro comemorar uma festa do norte da Europa, ele comemoraria um personagem legitimamente brasileiro.

A data nunca foi aprovada em lei nacional, mas foi aprovada no Estado de São Paulo e em vários municípios. Em Minas, por exemplo, a festa é oficial em Poços de Caldas.

Mais recentemente, por influência de alguns grupos religiosos, o combate ao halloween tomou um rumo inesperado: a proibição da festa sob alegação de que se trata de festa pagã que coloca nossas crianças em risco.

Aí está o FEBEAPÁ em ação. A festa é comemorada há mais de 2500 anos. Ela se converteu em festa cristã (halloween é uma festa cristã!) há cerca de 1500 anos. Nestes milênios e séculos, jamais se ouvir dize que a festa sexualizasse as crianças ou que as submetesse a perigos de violência sexual.

Nos Estados Unidos, um grupo propõe tirar a festa de dia fixo (31 de outubro) e colocar em data móvel. Isto, para que as crianças possam comemorá-la na noite de sexta-feira ou de sábado, dias da semana que não interferem com os estudos.

Há também os nacionalistas americanos, que querem acabar com a festa, porque ela veio da Inglaterra.

E há, como aqui, um grupo religioso, que acha que halloween é festa do diabo.

Enfim, parece que estamos de volta à idade média; ao tempo das caças às bruxas. Às bruxas, aos gatos, aos corvos e aos religiosos. São tempos em que um pequeno grupo de alucinados decide quem são as bruxas, e quem são os religiosos que merecem ser enforcados.

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