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Meritocracia, quase sempre, é conversa para boi dormir

Muitos gostam de dizer que quem vence na vida teve mérito; quem não vence, não tem mérito. Será?

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 14/12/2025 18:57
Meritocracia, quase sempre, é conversa para boi dormir
O ideal da meritocracia é atraente, mas, na prática, costuma esconder um discurso racista e aporofóbico

 

Tem sido cada vez mais comum a gente ver nas redes sociais pessoas defendendo a meritocracia. Mas, o que é a meritocracia?

Ideal da meritocracia

 No mundo ideal, meritocracia é o sistema social, político e organizacional em que o poder, o prestígio e as recompensas materiais resultam do mérito individual. Ou seja, resultam do trabalho, esforço, estudo e dedicação que a pessoa dedicou para chegar onde chegou. Portanto, para quem acredita neste ideal, o sucesso é fruto do merecimento e não de privilégios de berço, de classe ou de apadrinhamento.

Embora seja uma proposta bonita e justa, na nossa sociedade ela é feia, injusta e falsa. Na prática, é usada para justificar as injustiças sociais e o desequilíbrio econômico entre classes. É uma tentativa de explicar e amenizar disparidades escandalosas, como tantos viverem de salário mínimo em casas modestas, e bairros pobres, enquanto uns poucos viverem em mansões luxuosas e têm rendas mensais que sobem a milhões.

Igualdade real

Imagine uma olimpíada. Há os times femininos, e há os times masculinos. Não se coloca um time de mulheres jogando contra um time de homens. Tampouco se coloca uma nadadora disputando com um nadador. Ou uma lutadora lutando contra um lutador. Por que a separação? Porque, na maioria dos esportes, os homens têm vantagens biológicas sobre as mulheres. Eles são mais musculosos, mais altos, mais ligeiros. Portanto, não seria justo deixar times masculinos disputando contra times femininos.

A mais coisa acontece com atletas de idades diferentes. Nas corridas, por exemplo, as disputas são por faixa etária. Não se colocam pessoas de 80 anos concorrendo com pessoas de 20 anos. As competições são entre pessoas de idade aproximadamente igual.

Quando semelhantes competem entre si, podemos avaliar o mérito individual. Aí, sim, a superioridade pode decorrer do esforço, da dedicação, do treino, do talento de cada um, e não de desvantagens biológicas ou ambientais que atingem o adversário.

Igualdade inexistente

No sistema capitalista liberal, não há igualmente de oportunidades. Nele, os desprivilegiados têm que concorrer com privilegiados. É a mesma falta de igualdade que haveria se colocássemos um time de mulheres para disputar com um time de homens. 

Os números nos mostram uma coisa com clareza: os filhos de ricos tendem a continuar ricos. Os filhos de pais com curso superior tendem a ter curso superior. Filhos de famosos tendem a ser famosos. Por outro lado, filhos de pobres tendem a continuar pobres; filhos de pais analfabetos tendem a ser analfabetos, e assim sucessivamente. Não há mistério nisto. Alguns têm muitas oportunidades, outros têm poucas ou nenhuma. O ponto de largada na corrida do sucesso é diferente: jovens de famílias ricas já saem com quilômetros de dianteira. Jovens de famílias pobres arrancam lá de trás. Não competem em pé de igualdade.

Filho de rico tem herança para continuar rico, filho de pobre não tem. Mas, muito antes de chegar o momento da herança, muita coisa a acontece. O filho de rico tem boas roupas, boas comidas, boas escolas, bons professores. Tem oportunidade de viajar, conhecer lugares e pessoas. Pode seguir se aperfeiçoando, sem suar, até os vinte anos, os trinta anos.

Já filho de pobre começa no prejuízo. Não tem boa alimentação, não tem boas roupas, nem sempre consegue frequentar boas escolas. Não tem oportunidade de viajar, conhecer lugares e pessoas. Todo dia é uma luta pela sobrevivência.

Dessa forma, enquanto o filho de rico começa de um patamar elevado, o filho do pobre começa de um patamar bem mais baixo. Por isto, não se pode dizer que o rico venceu por mérito, e que o pobre não venceu porque não teve mérito. Isto é conversa para boi dormir.

Ações afirmativas

Para que o pobre saia da pobreza, os governos têm que estender as mãos aos que nasceram em situação desprivilegiada. Têm que dar escolas públicas de qualidade, assistência médica, alimentação adequada, renda complementar, e outras ações afirmativas, como bolsas de estudo e cotas raciais.

Desta forma, quando o filho do pobre se tornar adulto, ele terá condições de igualdade para competir. Aí, sim, será possível falar em mérito.

Sem esta equalização de base, falar em meritocracia, é apenas uma forma de culpar os pobres por terem nascido pobres e justificar vantagens pessoais dos filhos ricos que não decorrem de mérito, mas de herança, de família, de classe social.

Há até uma palavra complicada para expressar esta false ideia de mérito: aporofobia, o medo ou aversão a pobres. Quem tem aversão a pobre busca justificar a pobreza não pela história, mas pela imaginária falta de mérito.

Meritocracia nos concursos públicos

Um dos exemplos de meritocracia no Brasil são os concursos públicos. Sim, certamente são melhores do que o sistema antigo, onde políticos indicavam seus parentes, amigos e apaniguados para ocuparem cargos públicos vitalícios. Os concursos melhoram as chances de sucesso por mérito. Mas, mesmo assim, a disputa é desigual. Os concurseiros filhos de ricos já começam com a vantagem de boas escolas. Depois, quando chega a hora de fazer concurso, podem comprar livros, frequentar cursinhos, e ainda ter dedicação exclusiva na preparação.

Enquanto isto, os pobres já vieram de escolas de menor qualidade, têm dificuldade de comprar material didático, e quase sempre precisam de trabalhar para sobreviver. Moram longe, gastam horas no transporte público de má qualidade, têm pouco tempo para dormir.

Onde está a igualdade – a paridade de armas – que permite estabelecer o mérito dos concorrentes? Não há. Então, falar em meritocracia é conversa para boi dormir. Mal disfarçada aporofobia.

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