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Comece a entender o IPTU - Falhas da nova lei

A Planta Genérica de Valores era uma necessidade, mas há distância entre intenção e gesto

Fernando Cabral Por Fernando Cabral, em 21/12/2025 09:17
Comece a entender o IPTU - Falhas da nova lei
A Câmara aprovou a nova lei do IPTU. Ela traz inovações importantes, mas trará prejuízos para muita gente. Entenda por quê.

 

A forma de cobrança do IPTU em Bom Despacho é arbitrária e tem muitas injustiças. Para resolver isto, era necessário alterar a lei. As primeiras tentativas de ajuste começaram em 2013, mas fracassaram. Finalmente, em 2025, a nova lei foi aprovada. Ela traz alguns avanços, mas, votada às pressas, não corrigiu as injustiças sociais, embora tenha aliviado para algumas famílias.

A lei de IPTU é complicada. Vamos tratar dela em pequenos artigos, destacando um aspecto de cada vez. Hoje trataremos da progressividade e da regressividade. Se você quiser entender quem pagará mais, e quem pagará menos, o lugar de começar é aqui. Não tenha medo dos números. Eles estão mastigados.

O que é progressividade?

O IPTU deve ter duas formas de progressividade. Uma, com base no valor do imóvel. Isto significa que, quanto mais caro o imóvel, mais IPTU ele deve pagar. A outra é com base no aproveitamento do imóvel no tempo. Um lote vazio representa lucro para o proprietário e prejuízo para a cidade. Então, conforme o tempo passa, este lote deve ter IPTU mais elevado.

Quando o pobre paga menos e o rico paga mais, o imposto é progressivo. Quando o pobre paga mais, e o rico paga menos, o imposto é regressivo

Em ambos os casos, estamos falando de alíquota, não de valor em dinheiro. Alíquota é um percentual pelo qual o valor do imóvel é multiplicado para encontrar o valor do IPTU. Por exemplo, se seu imóvel vale R$ 100 mil e a alíquota é de 1%, o valor do IPTU será de R$ 1000,00.

É esta alíquota que caracteriza se o IPTU é justou ou injusto; se é progresso ou regressivo. 

Mínimos e máximos na nova lei

Quando comparamos alíquotas de lotes, imóveis residenciais e imóveis comerciais, vemos que há uma decisão política sensata. O menor IPTU por metro quadrado é dos imóveis residenciais, seguido dos imóveis comerciais. O IPTU mais caro é o dos lotes. Isto é razoável. A tabela abaixo mostra os valores mínimos e máximos para cada uma das categorias.


Valores mínimos e máximos do metro quadrado dos imóveis
Residenciais Comerciais

Lotes vagos

Mínimo Máximo Mínimo Máximo Mínimo Máximo
R$ 1,20 R$ 3,20 R$ 3,80 R$ 5,30 R$ 7,00 R$ 11,00

A tabela mostra que o valor mínimo do metro quadrado do imóvel comercial está acima do máximo do valor do imóvel residencial. Isto é positivo. Além disto, o valor mínimo do metro quadrado do lote vago é maior do que o valor máximo dos imóveis comerciais. Isto também é positivo.

Regressividade intra-tabela nos lotes

Agora, quando se examina cada tabela, há uma inconsistência. Primeiro, que os imóveis mais baratos sofrem aumentos maiores do que os imóveis mais caros. Isto não é boa política para o IPTU, pois há uma regressividade intra-tabela.

Alíquota regressiva da lei x alíquota neutra — Lotes
Alíquotas Degrau R$/m2 Alíquota neutra R$/m2
0,70%   7,00 0,70% 7,00
0,80% 14,28% 8,00 0,80% 8,00
0,90% 12,50% 9,00 0,91% 9,14
1,00% 11,11% 10,00 1,04% 10,45
1,10% 10,00% 11,00 1,19% 11,94

A tabela de lotes mostra que a taxa da progressividade é decrescente, mas deveria ser crescente. Ou, no mínimo, neutra. Desta forma, começaria com 0,70%,  mas terminaria em 11,19%, não 11,00. Isto significaria mais justiça social e mais arrecadação de quem tem mais. Mas, o ideal para um imposto verdadeiramente progressivo não seriam alíquotas com taxas neutras, mas crescentes.

A consequência da forma como está na lei é que será mais sacrificado, proporcionalmente, o proprietário de lotes entre R$ 30.000,01 e R$ 45.000,00. O menos sacrificado serão o proprietário de lotes acima R$ 150.000,00. 

Regressividade intra-tabela nos imóveis comerciais

No imóveis a regressividade intra-tabela é vai do início ao fim

Alíquota regressiva lei x alíquota neutra — Comerciais
Alíquotas Degrau R$/m2 Alíquota neutra R$/m2
0,38%   3,80 0,38% 3,80
0,41% 7,89% 4,10 0,41% 4,10
0,44% 7,31% 4,40 0,44% 4,42
0,47% 6,81% 4,70 0,51% 4,77
0,50% 6,38% 5,00 0,58% 5,15
0,53% 6,00% 5,30 0,66% 5,56

O que se observa aí é uma regressão na taxa desde o primeiro, até o último degrau. Isto é, quanto maior for a faixa de valor do imóvel comercial, menor é a taxa de crescimento da alíquota.

Regressividade intra-tabela nos imóveis comerciais

Alíquota regressiva da lei x alíquota neutra — Residenciais
Alíquotas Degrau R$/m2 Alíquota neutra R$/m2
0,12%   1,20 0,12% 1,20
0,14% 16,6667% 1,40 0,14% 1,40
0,16% 14,2857% 1,60 0,16% 1,63
0,18% 12,5000% 1,80 0,19% 1,91
0,20% 11,1111% 2,00 0,21% 2,22
0,23% 15,0000% 2,30 0,24% 2,59
0,26% 13,0435% 2,60 0,28% 3,03
0,29% 11,5385% 2,90 0,32% 3,53
0,32% 10,3448% 3,20 0,36% 4,12

 

Crescimento da alíquota x taxa de crescimento da alíquota

Neste artigo se fala em aumento da alíquota e taxa de crescimento da alíquota. São duas coisas diferentes. Quando a alíquota passa de 1% para 2%, ela cresceu 100%. Mas, quando passa de 2% para 3%, ela cresceu apenas 50%. Quando a taxa aumenta, há progressividade na taxa; quando não aumenta, a progressividade é neutra; quando diminui, ha regressividade. Nas tabelas mostradas acima, temos os três casos. O problema é que a taxa nunca aumenta para beneficiar os imóveis mais baratos!

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